Coisas #15_A correr para um estilo de vida

Que um estilo de vida saudável é preconizado por médicos e pelo Popeye já sabíamos. Sendo “a saúde o mais importante”, espectável será que se dê alguma importância à questão. Agora, se antes era o divino que comandava a vida, regrando e avaliando-a numa métrica teológica, o credo moderno apoia-se neste culto da saúde, onde o corpo é a expressão máxima da religião, sendo que se relevam aspectos mundanos como a alimentação, exercício físico e hábitos de consumo, só para citar alguns.

Ou seja, se antes ao Domingo se pregava que a Gula é um pecado capital, agora avalia-se entre o térreo e o etéreo na escolha do melhor iogurte bio para combinar com a granola da Quinta, porque faz bem à pele.

No fundo segue-se um trajecto espiritual mais terreno e mais individual, ligado ao corpo, à saúde e ao bem estar, cuidando o que comemos e os hábitos que praticamos.  Isto é já uma religião com milhares de seguidores, com encontro não na igreja ao Domingo, mas nas pistas de corrida de manhã, na Decatlhon e sob a efígie hastagiana de #healthylifestyle, #bitch.

Kanye West X Adidas
Kanye West X Adidas

Nem que seja para cagar passear o cão, qualquer moderado moderno cidadão da urbe preza-se por ter umas sapatilhas de corrida. Para além de serem confortáveis e especialmente aerodinâmicos estes chanatos são verdadeiros contemporâneos ícones da moda. Há modelos que custam o mesmo que uns sapatos Prada, há uma concorrência acérrima entre os gigantes do desporto, que vêm no #healthylifestyle uma oportunidade única para aumentarem o seu mercado alvo, há cada vez mais desfiles de moda em que são apresentadas colecções de sapatilhas de corrida, enfim, começo a pensar que no próximo casamento vão estar todos de yoga pants e lycras impermeáveis. E eu de fato, porque ninguém me avisou.

Model on the catwalk, fashion detail Alexander Wang show, Spring Summer 2017, New York Fashion Week, USA - 10 Sep 2016
Alexander Wang show, Spring Summer 2017, New York Fashion Week, USA – 10 Sep 2016

De facto este tipo de calçado já ultrapassou há muito a função de re-rotular qualquer indivíduo com mais de 35 como “jovem”. É já vinculativo a um estilo de vida. Nascem consumidores cuidadosos que atentam aos OGM (organismo geneticamente modificado), vêm o documentário Before the Flood e falam de cárdio e recuperação muscular como quem comenta o tempo. Talvez por isso sejam tão populares estes produtos. Talvez por isso seja tão popular esta cultura, do estares bem com o teu corpo e sentires-te bem nessa pele. Talvez por isso sejam tão populares as selfies em ginásios, porque sem prova não há crime.

 

 

Anúncios

Coisas #14 _ Miniaturas LIDL

As coisas pequeninas, assim para o quase anãs, despertam em nós sentimentos que apenas consigo relacionar aos raios que os ursinhos carinhosos emitiam. As transformações ocorrentes nas pessoas quando se encontram defronte de uma coisa/pessoa pequenina revelam isto mesmo. Se um rim/éclair não desperta em mim senão a vontade de o trincar, já uma miniatura de rim obriga-me a um “és tão fofinho” antes de o fazer preencher a cova de um dos meus molares, enquanto me rio à Carlos Cruz.

Quando se aliam comportamentos biológicos relativos a coisas pequeninas e o marketing agressivo das grandes superfícies de supermercado temos a campanha LIDL SHOP.

Quando conheci estas miniaturas primeiro pensei que eram a colecção inteira dos items de casa de banho de um hotel. Para além do champô e do sabonete tinhas agora também um mini rolo de papel higiénico para fazer conjunto. Assim podias viajar em low-cost usando uma meia como necéssaire.

Mas aparentemente os hamsters que poderiam usufruir destes produtos, e assim seria um bom negócio para quem investia em 15€ de compras no LIDL e recebia algo para manter o seu roedor, afinal não são o consumidor final destas coisinhas fofinhas. Destas coisinhas pequeninas e fofinhas fazem-se colecções. Que giro. Que mini-giro. Uma mini colecção de coisas que um supermercado oferece.

upload10345_4

Até dizia que seria uma ideia parva e que nunca teria resultado porque as pessoas pensam todas da mesma maneira, igual à minha no fundo. Fui relembrado que este raciocínio já teve fracos frutos num passado próximo. E constatei que as filas no LIDL estão maiores. E que quando se paga na caixa se regateia mais uma miniaturazinha porque se são de graça eu posso pedir mais uma. E que se fazem trocas e vendas no OLX, e que a colecção completa destes mini ícones do consumo dos dias que correm vale 50€.

Se a ideia eram os pequenos, a quem coisinhas pequeninas se dirigem, fazerem brincadeiras com estes itens, a verdade é que há uma horda de adultos à procura destes coleccionáveis. Faz sentido, já que são eles que pagam e que se podem intitular donos destas magníficas colecções. A bem ver, fica mais barato do que coleccionar as moedas dos países do euro ou os Matutazos de uma geração anterior.

De qualquer forma, parabéns à estratégia de reposicionamento da empresa, descrita aqui pela directora de comunicação, já que as filas estão cheias, fala-se muito no LIDL e os mini pratos voltaram a estar na moda. É um bom exemplo de uma estratégia de marketing pensada de raíz para mudar a empresa.

Agora que já agarrei a vossa atenção, se alguém tiver uma banana troco por um frango ou um esparguetinho que tenho a mais.

Rituais de iniciação à vida adulta_IKEA

Se uma performance se anuncia por via de um guião, emprestando o seu conjunto de acções ao texto que a comanda, como numa peça de teatro, o IKEA, através dos seus guias de como montar móveis, fornece-nos as directrizes de como agir e montar o teu habitat doméstico. Vivendo numa cena de uma peça na qual ensaiamos, actuamos e agimos, mas ainda assim seguindo um guião.

Morvik Roupeiro, IKEA.
Morvik Roupeiro, IKEA.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Casa nova, ida ao IKEA. Época nova, ida ao IKEA. Mudanças, ida ao IKEA. Nem é preciso a publicidade para nos lembrarmos disto. Nesta época já nem nos lembramos que há mesas para além daquelas coloridas de 5 euros. Porém, a facilidade com que encaramos a compra de produtos nas lojas IKEA é contraposta com a dificuldade, envolvendo tempo, perícia física e disponibilidade mental, de os montar.

Há uns tempos, montei um guarda-fatos Morvik para uma casa de um amigo. Demorou a duas pessoas uma tarde a montar, e acreditem que sou competente a montar móveis. E tínhamos uma aparafusadora eléctrica.

Passada a experiência, que envolveu secretárias e estantes Billy com fartura, comecei a pensar que é uma espécie de ritual de iniciação à vida adulta. Mais do que montar um móvel, ficar com as costas partidas, suado, a chamar nomes em sueco a todos as ferragens cujas formas nunca vi, é a dor da superação para uma fase importante da vida.

Também deve dar hérnias discais metamorfosear de crisálida para borboleta.

ikea-man

 

 

 

 

 

 

A vida é uma performance, daquelas cliché, onde actuamos conforme a nossa personagem e nos comportamos consoante a nossa vontade, com os graus de liberdade a que nos propomos e que nos são impostos. Mudar de casa, mobilá-la, decorá-la, iniciar uma nova vida num novo espaço exige contudo um guião que normalmente envolve um bonequinho simpático pouco falante e nórdico. Que nos parte as costas ao meio. Gostava de poder voltar a seguir e não seguir as instruções de montagens dos Legos. Saudades de ser miúdo 🙂

Coisas #9 – Cruzeta

Cabide ou Cruzeta? Definitivamente o uso de uma ou outra palavra pode comunicar a tua resistência gástrica à ingestão prolongada de francesinhas. Do Norte. Não da França.

Se bem que não tão radical como aloquete, a palavra cruzeta é um forte indicativo da tua região de origem, cultura falada a que estás e foste sujeito. Embora seja difícil atribuir um regionalismo ao termo/objecto, ligando-o à região Norte do país onde é mais comum ser empregue, a raíz etimológica das palavras cabide e cruzeta apontam para essa diferença. Cabide tem origem árabe, qabda, “garra, gancho”, e cruzeta do latim, crux quer dizer cruz. Mouros, chamam nos eles.  Grosso modo, se dizes que as cruzetas estão seguras porque as prendeste com um aloquete está tudo bem, és do Norte.cruzeta

 

Regionalismos e linguística à parte, este é um objecto fascinante. Um daqueles objectos sintéticos, cuja simplicidade e ainda assim variedade nos permite discorrer sem nunca ficar pendurado.

A cruzeta vem da simples agregação de dois pedaços de madeira que com um gancho no topo serve para pendurar a roupa em armários. A sua trave vertical alongada serve para pendurar o vestido/casaco em lugares mais altos. Simplifica a sua utilização. Simplificado é também o desenho e método construtivo que da sobreposição de dois pedaços de madeira se obtém um objecto útil e prático. Cada Cruzeta apresenta um carácter anónimo mas suficientemente distinto para ter alguma individualidade. A essência do objecto, “its quiddity“, está na interpretação do modelo construtivo.

A cruzeta pede o nome emprestado à forma que lhe dá origem. O cabide é um móvel ou uma peça para pendurar roupa. Dado que a função do último é mais frequente este substituiu em nome a cruzeta, já que esta aponta apenas para o modelo construtivo.

Cada objecto, sobretudo naqueles em que se nota serem feitos à mão, reflecte a visão única do seu criador, por mais anónimo ou estritamente funcional que ele seja. Se atentarem irão de certo encontrar objectos com estas características, a começar nos cabides de madeira dos nossos avós.

Cada qual pensa em como constrói o mundo material que lhe é pedido desenhar.

 

Coisas #7 Água de Fátima

Para poder escrever sobre um assunto que não lembra ao menino Jesus, decidi debruçar-me sobre água. Mais propriamente água de Fátima, esse vulcão de milagres, segredos e sandes de leitão.

Sagrado é o coração de Maria. Já todo ouvimos esta expressão. Ora e a água de Fátima? É sagrada?

No outro dia, lendo uma notícia partilhada no FB por amigos reaccionários, vi que a Nestlé se prepara para dominar o mercado mundial da água. Querem que seja privatizada. Toda. Fazendo com que seja possível dizer esta alarvidade: “aquele meu banho de iogurte grego soube-me a maracujá”. Porque no fundo são os melhores e isto tinha de ser dito 🙂

20160229_124524
Água de Fátima _ Imprópria para consumo

Fora de delírios oníricos, eu acho que a água de Fátima deve estar para ser privatizada e percebo bem porquê. Existe um produto, com muita aceitação em Fátima que são umas garrafinhas, com formas várias, para transportar “Água de Fátima”. Pode até nem ser própria para consumo, signifique o que isso significar, mas transporta o bem essencial de forma desprestigiante para algo que até vem de terra milagrosa.

Existem contentores em forma de peixe, porque sim, em forma de garrafão de 5 litros já que água não te leva ao céu, e um sem número de tamanhos para diferentes carteiras, credos e acreditações.

Aqui aceito a privatização da água. Então como é que podemos garantir que uma coisa se pode vender como sagrada se é produzida/processada pelo Estado? E a laicização do Estado onde fica? Há que separar as águas.

Assim, deve-se garantir  que há padres, competentes, para abençoar a dita. Podemos também falar, apostando somente num mercado alvo alto, da sua bentificação, canelonização ou santinificação. Muita marca já se criou com menos. Benta deve valer mais do que sagrada, canelonizada é um piscar de olho ao charme italiano e santinificada porque no fundo todos sabemos que a base de um bom gelado está na água.

Estratégias de valor acrescentado é o que precisamos neste burgo. Vender água como se valesse mesmo mais do que custa ao sair da torneira, em garrafinhas que nem por solidariedade industrial vamos comprar à Marinha Grande com a lata de as salvaguardar como impróprias para consumo. De facto é difícil engolir isto de um trago só.