Incremental / Fracturante

(texto originalmente publicado no Jornal de Leiria edição de 29 de Março de 2019. Pode ser consultado aqui: https://www.jornaldeleiria.pt)

Há dois pensamentos que caracterizam os pólos de pensamento criativo. São a inovação incremental e a inovação fracturante.

O pensamento incremental envolve normalmente a evolução de um conceito anterior por via do incremento de uma funcionalidade ou característica nova. Por exemplo, a Gillete com 5 lâminas é uma inovação face à de 4 lâminas, mesmo que sejam basicamente o mesmo produto. Este tipo de estratégia de inovação surge sobretudo como forma de potenciar vendas, criando um momento de comunicação novo. São normalmente a aposta segura de quem não arrisca, mas que também não gera nem procura marca pela diferença.

Por outro lado, o pensamento fracturante implica um corte com o dogma vigente. Havendo naturalmente uma avaliação graduada, são estes movimentos que impelem a mudança profunda. No campo da invenção pode dar-se o exemplo do Iphone, da Apple. São produtos muitas vezes revolucionários, que criam as suas próprias regras impondo a sua identidade. Apesar disso sofrem do facto de, não havendo referencial à data destas invenções, produtos, etc, o seu sucesso tornar-se difícil de prever, sendo resultado da visão e responsabilidade dos autores a força motriz para que sejam lançados/implementados.

Porém, estes dois casos servem sobretudo como exemplo dos dois extremos, uma vez que é no meio que se encontra a virtude. Seja porque a inovação incremental não consegue acompanhar as mudanças socioeconómicas cada vez mais rápidas em curso, seja por que a inovação fracturante falha muitas vezes ao lançar propostas que estão desfasadas daquilo que é o contexto presente para onde estas se destinam, as estratégias de inovação que procuram as características positivas dos dois pólos são as que mais sucessos terão.

Por um lado, garantem que indo do ponto A ao B através de incrementos substanciais não ocorre um desfasamento cultural, por outro, que, aplicando uma visão de futuro, a originalidade e identidade não se perdem na urgência de querer agradar.

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Açúcar

(texto originalmente publicado no Jornal de Leiria, edição de 30 de Agosto de 2018. Pode ser consultada aqui https://www.jornaldeleiria.pt/opiniao/acucar-9176)

O açúcar provoca em nós a sensação de prazer, rápido e eficaz. Não é de estranhar que, dada a escolher, uma criança preferiria um chocolate a uma sopa. Isto porque seguiria o seu instinto de prazer imediato sem fazer o necessário, e parental, raciocínio de pesar na balança o que melhor fará à sua saúde a longo prazo.

Correntemente, andamos a ser bombardeados com chocolates e ducheses de prazer imediato, seja na forma de notícias ou de opiniões que nos precipitam a gostar de forma compulsiva.

São notícias, opiniões e/ou factos aos quais acorrem a maioria. Seja pelo insólito, pelo invulgar, anacrónico, ou simplesmente curiosidade. Acontece que hoje em dia consumimos demasiadas notícias que em muito pouco contribuem para construção de uma dieta saudável. Como aquele bolinho que comi ao lanche, não tinha nada de ir carregar naquela notícia sobre míscaros do pinhal. Estraga a dieta, e ao invés de desbloquear uma conversa com, por exemplo, as consequências da redução do IRS para quem, como na minha geração, emigrou nos anos da crise, vou simplesmente falar de míscaros do pinhal. Foi o que andei a comer/ler, ia falar de quê? Do tempo?

Ora, sejam as causas mais ou menos sabidas, isto tem consequências. Uma delas é a de que o açúcar vende mais. Encontramos mais bolos que barras nutritivas. O que faz com que com que a comunidade ande mais doce e se incline para manifestar opiniões que, grosso modo, sejam também elas mais doces. Mas temos mesmo de falar apenas de bolos e chocolates? Fazendo o jeito ao MEC, onde é que ficou a torrada?

Como se pode construir uma sociedade avançada, tolerante e progressiva, se não houver direito a exprimir uma opinião agridoce ou amarga, no fundo diferente? Segundo escreve Bryan W. Van Norden no artigo “The Ignorant Do Not Have a Right to an Audience” no jornal The New York Times, tem de haver uma distinção entre o que é liberdade de discurso e o direito a audiência, sendo que temos todo o direito à nossa opinião, mas o acesso à audiência deveria ser restrito a opiniões nocivas à sociedade. Ou seja, claro que podemos falar de bolos, se também partilharmos as vantagens nutritivas da quinoa.

No fundo é tudo um problema de açúcar.