Pós-Plástico

(Texto originalmente publicado no Jornal de Leiria a 13-12-2018 https://www.jornaldeleiria.pt/opiniao/pos-plastico-9609)

Estamos numa corrida contra o plástico. É obrigatório Impedir que as embalagens e produtos descartáveis em plástico acabem nos oceanos mas também limpar os resíduos que se têm acumulado nos últimos anos.  Uma sociedade que olha para as consequências de um sobrepopulamento mundial precisa de ter um plano para o que virá depois de resolvermos estes problemas. Como será o mundo sem plástico? Qual a utopia que perseguimos, quais são as alternativas e as perspectivas?

Primeiro há que olhar para a trajetória deste material. Se inicialmente, nos anos 40/50, a utilização de resinas plásticas para a conformação de objectos representava uma inovação digna dos objetos mais nobres ou revolucionários, como por exemplo os telefones Bell desenhados por Henry Dreyfuss. Posteriormente, já nos anos 60, houve a necessidade de aliar a liberdade de pensamentos à criação de formas futuristas como a cadeira Panton de Verner Panton, a primeira em plástico a ser produzida numa só peça, ou os conjuntos de mobiliário de Joe Colombo, complexas máquinas domésticas modernas.

Assistia-se à materialização da utopia moderna.

Porém, como material inovador o plástico foi substituindo alguns materiais nos objectos do nosso quotidiano. Copos, pratos, mobiliário e até carros foram sendo produzidos em plástico. Objectos presentes na exposição permanente de design do MAD Paris, que os apresenta, numa perspectiva optimista, como a quimera do futuro.

Contudo, a massificação dos processos produtivos, que procurou satisfazer a crescente demanda de uma população exponencialmente consumista, permitiu tornar este material barato e empregá-lo em objectos de uso descartável. De 1950 a 2016 passou-se de uma utilização de 1,5 milhões de toneladas de plástico para 335 milhões de toneladas.

É preciso envisionar realidade alternativas, como regulação mais presente, uma consciencialização mais presente e opções biodegradáveis, mas também criar cenário onde o plástico já não é uma comodidade mas um privilégio. E aqui o design pode ajudar.

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Nail Design

Chegámos a um ponto onde o Design, enquanto disciplina, e o Designer, enquanto profissional, são já parte da cultura popular. Se em tempos havia quem ficasse na dúvida quanto aos desígnios de uma profissão que deve o seu nome a um estrangeirismo, hoje a coisa é tão banal que serve de prefixo para transformar qualquer actividade aborrecida no pináculo da modernidade. Consequências de uma epistemologia escatológica?

Senão vejamos. Jardineiro ou designer de espaços verdes? Vendedor da banha da cobra ou Design Thinker? Esteticista ou Designer de Sobrancelhas?

É assim. Cansámos rápido do epíteto de Gourmet para tudo o que fosse menos tascoso que uma sandes de panado e a moda agora é empregar a palavra design como um adjectivo de valor acrescentado associado a actividades menos sexy.

É culpa própria. Tanto ramificámos o próprio alcance que a disciplina teria, tanto estendemos o campo semântico onde o designer intervinha, tanto generalizámos a aplicação das nossas revoluções, tanto se criaram cursos e pós graduações e mestrados em todos os tipos de design que, este ano nos USA, a expressão associada a design mais pesquisada no Google foi Nail Design.

Nail Design

Objectivo para 2019, Workshop de Unhas de Gel, porque nunca se sabe quando se dará a próxima viragem profissional.

 

 

Açúcar

(texto originalmente publicado no Jornal de Leiria, edição de 30 de Agosto de 2018. Pode ser consultada aqui https://www.jornaldeleiria.pt/opiniao/acucar-9176)

O açúcar provoca em nós a sensação de prazer, rápido e eficaz. Não é de estranhar que, dada a escolher, uma criança preferiria um chocolate a uma sopa. Isto porque seguiria o seu instinto de prazer imediato sem fazer o necessário, e parental, raciocínio de pesar na balança o que melhor fará à sua saúde a longo prazo.

Correntemente, andamos a ser bombardeados com chocolates e ducheses de prazer imediato, seja na forma de notícias ou de opiniões que nos precipitam a gostar de forma compulsiva.

São notícias, opiniões e/ou factos aos quais acorrem a maioria. Seja pelo insólito, pelo invulgar, anacrónico, ou simplesmente curiosidade. Acontece que hoje em dia consumimos demasiadas notícias que em muito pouco contribuem para construção de uma dieta saudável. Como aquele bolinho que comi ao lanche, não tinha nada de ir carregar naquela notícia sobre míscaros do pinhal. Estraga a dieta, e ao invés de desbloquear uma conversa com, por exemplo, as consequências da redução do IRS para quem, como na minha geração, emigrou nos anos da crise, vou simplesmente falar de míscaros do pinhal. Foi o que andei a comer/ler, ia falar de quê? Do tempo?

Ora, sejam as causas mais ou menos sabidas, isto tem consequências. Uma delas é a de que o açúcar vende mais. Encontramos mais bolos que barras nutritivas. O que faz com que com que a comunidade ande mais doce e se incline para manifestar opiniões que, grosso modo, sejam também elas mais doces. Mas temos mesmo de falar apenas de bolos e chocolates? Fazendo o jeito ao MEC, onde é que ficou a torrada?

Como se pode construir uma sociedade avançada, tolerante e progressiva, se não houver direito a exprimir uma opinião agridoce ou amarga, no fundo diferente? Segundo escreve Bryan W. Van Norden no artigo “The Ignorant Do Not Have a Right to an Audience” no jornal The New York Times, tem de haver uma distinção entre o que é liberdade de discurso e o direito a audiência, sendo que temos todo o direito à nossa opinião, mas o acesso à audiência deveria ser restrito a opiniões nocivas à sociedade. Ou seja, claro que podemos falar de bolos, se também partilharmos as vantagens nutritivas da quinoa.

No fundo é tudo um problema de açúcar.

Castelos de Areia

Tenho a impressão que a maioria das pessoas gosta de ganhar prémios. É um cunho de sucesso. No caso da marcas de design, chamemos-lhe assim, é uma distinção competitiva ter um selo atribuído por uma entidade internacional.

Tenho a impressão que a maioria das pessoas gosta de ganhar prémios. É um cunho de sucesso. No caso da marcas de design, chamemos-lhe assim, é uma distinção competitiva ter um selo atribuído por uma entidade internacional.

Se inicialmente estes Awards apenas reconheciam o melhor dos melhores e serviam como um statement de progresso da disciplina do design, mostrando e promovendo as práticas vanguardistas e os projectos mais inovadores, nos dias que correm a sua proliferação dilui o impacto que têm e parece que se não se ganham dois ou três por produto, que se está a falhar enquanto empresa/designer.

Dizia-me um professor há uns tempos que Portugal era dos países, em proporção, com mais prémios de design atribuídos a produtos ou designers portugueses. Ena!

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Há no entanto que fazer a distinção,  já que há prémios e prémios, concursos e concursos. Uns mais conhecidos que outros, têm também métodos de aferição diferentes. Nuns casos a selecção é feita por um júri internacional experiente, noutros por voto popular, ou ainda em sistemas mistos. Agora, comum a quase todos é a taxa de inscrição que ao invés de ser apenas dissuasora torna estas entidades premiadoras óptimos negócios.

Good Design Awards, ID Award, ICFF, German Design Awards, Red Dot Design, A Design Awards, etc. , são apenas alguns dos prémios onde é exigida um valor de inscrição para participar. Entre 200€ a 600€ destinam-se sobretudo a empresas, cujo valor económico associado aos produtos que pretendem “validar” faz justificar a participação.

É curioso que nunca vi uma Channel ou uma Dior serem mais relevantes por terem ganho um prémio atribuído a um dos seus designers. Muito menos participarem em concursos/prémios para verem os seus produtos reconhecidos. Num segmento de luxo que privilegia o valor cultural dos objectos vendidos, a validação não advém de entidades externas, mas da franca capacidade das suas equipas criativas de criarem desejo, de criarem uma identidade própria.

Esta ideia de ter de ganhar um prémio na Alemanha para um produto valer alguma coisa incorre no já mantra de que para se suceder “tem que se ter reconhecimento lá fora”.

Acredito mais que o diálogo entre pares, a troca e partilha de conhecimentos e contactos e a organização de eventos, mostras e feiras nacionais se consegue criar uma comunidade com identidade própria forte, tanto ao nível do design mais industrial/empresarial como ao nível do atelier/oficina. Mas cada qual com a sua bicicleta, ou prémios, concurso, tarja..

 

 

Startups e o design de produto

No outro dia disseram-me numa reunião camarária que no actual panorama de empreendedorismo o design de produto não se enquadra. Não é start-up-ável. Dada o interesse em desenvolvimento de empresas e serviços dedicados exclusivamente ao mundo digital não há necessidade para criar produtos.

Penso que esta afirmação não podia estar mais errada e demonstra até certa ignorância sobre o assunto.

Pebble time
Pebble Time

Basta olhar para o top5 das campanhas mais suportadas no Kickstarter, a plataforma de apoio a ideias empreendedoras, e verificar que a maioria delas são campanhas para produtos. Produtos que estão integrados no mundo digital, seja por via de controlos ou por via de aplicações que acrescentam funcionalidades aos dispositivos. Produtos com uma forte componente electrónica e de tecnologia corrente.

Há também uma série de produtos que recorreram ao Kickstarter e que são hoje case studies do que se denomina de produtos da Internet Of Things, que é a noção de que todos os objectos/produtos estão ou estarão ligados à rede.

Os produtos da Nest recorrem todos eles a um mesmo conceito. Produtos de controlo e monitorização da casa, ou seja, dispositivos electrónicos que tornam o lar mais inteligente.

Recentemente falou-se do flop que foi a comercialização do Juiceroo, um produto desenhado pelo estúdio do Yves Behar, internacionalmente conhecido por ser dos que mais faz integração de nova tecnologia em produtos do dia a dia.

juicerro
Juiceroo

Cá mais junto de nós temos também um bom exemplo do que é pegar numa ideia de produto, desenvolvê-la, procurar financiamento e avançar para produção/comercialização. Falo da Mellow, um projecto desenvolvido em Portugal que procura trazer uma solução para o tipo de cozinha sous-vide.

Podia continuar a dar exemplos de marcas/empresas focadas no produto que são óptimos exemplos de start ups, mas penso que a ideia fica. O design de produto, e cada vez mais depois do advento da Apple, é uma disciplina importantíssima no desenvolvimento de marcas que procuram ser líderes de mercado, que procuram a novidade, que procuram singrar num mercado global cada vez mais competitivo.

Isto porque nem só de Apps para telemóveis vive o comum dos mortais. Precisamos claramente de mais máquinas de sumos ligadas à internet.

 

Coisas #16_Troféus

Se alguém nunca ganhou um troféu, ou uma medalha, não sabe o que isso significa. Mesmo que pouco interesse a sensação de vitória, o significado que se dá, a este objecto representativo, é o que lhe completa o fim.

O Troféu é um objecto magnífico. Tem a rara capacidade para ser o símbolo de emoções que os objectos normalmente não possuem. Falo do orgulho, da frustração, da felicidade. De um momento ou de episódio, de uma corrida ou de uma batalha, esta categoria de objectos de representação possuem o pode de carregar emoções, e só emoções. Já que a sua finalidade é serem contentores de significados, o aspecto formal apenas tem de aludir ao contexto em que se insere, de um forma mais ou menos directa. Ou seja, o troféu para o prémio de melhor jogador de futebol do mundo, de um determinado ano, é uma bola de ouro. Mas pode bem não ser.

Michal Fargo
Michal Fargo _ Post Fossil Trophies http://www.michalfargo.com/post-fossil-trophies

Nestas nuances de interpretação encontra-se o espaço criativo para definir como se parecerá o troféu que representa o prémio de determinada coisa. Há aqui uma beleza de escultura formal de um objecto, que acho o expoente máximo da liberdade expressiva num objecto com uma função. A função simbólica do Troféu é apenas o que importa. A Forma que materializa o objecto surge apenas como adereço de contextualização. Tudo o resto é exploração que ainda assim cumpre um legado cultural de regras.

Apesar disso, tem de existir um cuidado para que o significado não fique adulterado pelo meio. Ou seja, tem de fazer jus aos significantes formais que fazem um troféu. Ter uma base, talvez uma inscrição e um símbolo maior associado ao contexto são prerrogativas obrigatórias para que se identifique o objecto como um troféu.

Posto isto, criar troféus só pelo desporto é o melhor exercício criativo que imagino, sem que a haja a presunção de ganhar mais do que feijões.

 

 

 

Design para comer

Este post não trata de food design.
Se tempos houve em que as discussões sobre as ramificações epistemológicas do design fizessem sentido, não foi seguramente no período pós-crise, irónico, das legislaturas Sócrates/passos, que vivemos.
 
O design é também uma profissão, e não só uma disciplina. Ou seja, dela dependem famílias, indivíduos e no fundo uma inteira classe. Se de repente não houver trabalho para designers em Portugal estes enfrentam uma bifurcação, ora emigram ora fazem outra coisa. Se se falou da emigração de cérebros e das consequências desse desenraizamento, também é preciso dizer que essa redefinição da profissão provocou mudanças na forma de operação do sistema profissional onde nos inserimos.
Para começar o sistema de royalties que alimentava de forma fixa muitos estúdios de design está a cair. Benjamin Hubert é um dos que critica este sistema. Criou para isso um estúdio, o Layer, onde desenvolve produtos de forma autónoma, sem a pressão de ir atrás da indústria. Se em Portugal durante muito tempo havia a necessidade de outra ocupação/profissão para manter um atelier aberto, como por exemplo dar aulas, hoje a falta de espaço para novos designers fez com que muitos começassem os seus próprios ateliers/negócios. Eu incluído.
Vejo me cada vez mais como um profissional liberal da criatividade. Faço umas cenas, o que aparece. Tenho de criar muito trabalho para mim e como quem trabalho de forma a que a coisa mexa. Ser criativo também envolve arranjar formas de monetizar o teu trabalho. É tramado mas é o sistema onde vivemos.