Startups e o design de produto

No outro dia disseram-me numa reunião camarária que no actual panorama de empreendedorismo o design de produto não se enquadra. Não é start-up-ável. Dada o interesse em desenvolvimento de empresas e serviços dedicados exclusivamente ao mundo digital não há necessidade para criar produtos.

Penso que esta afirmação não podia estar mais errada e demonstra até certa ignorância sobre o assunto.

Pebble time
Pebble Time

Basta olhar para o top5 das campanhas mais suportadas no Kickstarter, a plataforma de apoio a ideias empreendedoras, e verificar que a maioria delas são campanhas para produtos. Produtos que estão integrados no mundo digital, seja por via de controlos ou por via de aplicações que acrescentam funcionalidades aos dispositivos. Produtos com uma forte componente electrónica e de tecnologia corrente.

Há também uma série de produtos que recorreram ao Kickstarter e que são hoje case studies do que se denomina de produtos da Internet Of Things, que é a noção de que todos os objectos/produtos estão ou estarão ligados à rede.

Os produtos da Nest recorrem todos eles a um mesmo conceito. Produtos de controlo e monitorização da casa, ou seja, dispositivos electrónicos que tornam o lar mais inteligente.

Recentemente falou-se do flop que foi a comercialização do Juiceroo, um produto desenhado pelo estúdio do Yves Behar, internacionalmente conhecido por ser dos que mais faz integração de nova tecnologia em produtos do dia a dia.

juicerro
Juiceroo

Cá mais junto de nós temos também um bom exemplo do que é pegar numa ideia de produto, desenvolvê-la, procurar financiamento e avançar para produção/comercialização. Falo da Mellow, um projecto desenvolvido em Portugal que procura trazer uma solução para o tipo de cozinha sous-vide.

Podia continuar a dar exemplos de marcas/empresas focadas no produto que são óptimos exemplos de start ups, mas penso que a ideia fica. O design de produto, e cada vez mais depois do advento da Apple, é uma disciplina importantíssima no desenvolvimento de marcas que procuram ser líderes de mercado, que procuram a novidade, que procuram singrar num mercado global cada vez mais competitivo.

Isto porque nem só de Apps para telemóveis vive o comum dos mortais. Precisamos claramente de mais máquinas de sumos ligadas à internet.

 

Anúncios

Coisas #16_Troféus

Se alguém nunca ganhou um troféu, ou uma medalha, não sabe o que isso significa. Mesmo que pouco interesse a sensação de vitória, o significado que se dá, a este objecto representativo, é o que lhe completa o fim.

O Troféu é um objecto magnífico. Tem a rara capacidade para ser o símbolo de emoções que os objectos normalmente não possuem. Falo do orgulho, da frustração, da felicidade. De um momento ou de episódio, de uma corrida ou de uma batalha, esta categoria de objectos de representação possuem o pode de carregar emoções, e só emoções. Já que a sua finalidade é serem contentores de significados, o aspecto formal apenas tem de aludir ao contexto em que se insere, de um forma mais ou menos directa. Ou seja, o troféu para o prémio de melhor jogador de futebol do mundo, de um determinado ano, é uma bola de ouro. Mas pode bem não ser.

Michal Fargo
Michal Fargo _ Post Fossil Trophies http://www.michalfargo.com/post-fossil-trophies

Nestas nuances de interpretação encontra-se o espaço criativo para definir como se parecerá o troféu que representa o prémio de determinada coisa. Há aqui uma beleza de escultura formal de um objecto, que acho o expoente máximo da liberdade expressiva num objecto com uma função. A função simbólica do Troféu é apenas o que importa. A Forma que materializa o objecto surge apenas como adereço de contextualização. Tudo o resto é exploração que ainda assim cumpre um legado cultural de regras.

Apesar disso, tem de existir um cuidado para que o significado não fique adulterado pelo meio. Ou seja, tem de fazer jus aos significantes formais que fazem um troféu. Ter uma base, talvez uma inscrição e um símbolo maior associado ao contexto são prerrogativas obrigatórias para que se identifique o objecto como um troféu.

Posto isto, criar troféus só pelo desporto é o melhor exercício criativo que imagino, sem que a haja a presunção de ganhar mais do que feijões.

 

 

 

Design para comer

Este post não trata de food design.
Se tempos houve em que as discussões sobre as ramificações epistemológicas do design fizessem sentido, não foi seguramente no período pós-crise, irónico, das legislaturas Sócrates/passos, que vivemos.
 
O design é também uma profissão, e não só uma disciplina. Ou seja, dela dependem famílias, indivíduos e no fundo uma inteira classe. Se de repente não houver trabalho para designers em Portugal estes enfrentam uma bifurcação, ora emigram ora fazem outra coisa. Se se falou da emigração de cérebros e das consequências desse desenraizamento, também é preciso dizer que essa redefinição da profissão provocou mudanças na forma de operação do sistema profissional onde nos inserimos.
Para começar o sistema de royalties que alimentava de forma fixa muitos estúdios de design está a cair. Benjamin Hubert é um dos que critica este sistema. Criou para isso um estúdio, o Layer, onde desenvolve produtos de forma autónoma, sem a pressão de ir atrás da indústria. Se em Portugal durante muito tempo havia a necessidade de outra ocupação/profissão para manter um atelier aberto, como por exemplo dar aulas, hoje a falta de espaço para novos designers fez com que muitos começassem os seus próprios ateliers/negócios. Eu incluído.
Vejo me cada vez mais como um profissional liberal da criatividade. Faço umas cenas, o que aparece. Tenho de criar muito trabalho para mim e como quem trabalho de forma a que a coisa mexa. Ser criativo também envolve arranjar formas de monetizar o teu trabalho. É tramado mas é o sistema onde vivemos.

Feito em Portugal / Sold Elsewhere

Na onda de optimismo galopante e empolgante que percorre todas as áreas económicas e sociais do país, e que bem lhe fazem, há um aspecto que se verificou e continua a verificar que pode por em causa o crescimento que tanto se procura.

Há falta de marcas na manufactura portuguesa. Há falta de design de produto e estratégico em Portugal.

O posicionamento de uma indústria, vista como de excelência, é a de oferecer competitividade, leia-se preço e qualidade, a um manancial de clientes estrangeiros que vêem em Portugal o local ideal para produzirem os produtos da sua marca/empresa. Feito em Portugal, vendido noutra parte do planeta.

Percebo que uma fábrica tenha de fabricar e que as encomendas directamente exportáveis são a melhor e mais rápida forma de garantir sustentabilidade. Mas lamento que não haja transversalmente a vontade e o ímpeto empreendedor de ganhar gradualmente cota de mercado através de produtos de marca própria.

Aqui produz-se bem, a bom preço e com pouca confiança própria. As consequências da dependência de terceiros, sobretudo em regimes de quase exclusividade, para o funcionamento de uma unidade fabril já provaram ser fatais. Para além da diversificação de clientes ser uma estratégia viável, defendo que as unidades fabris devam criar ou vender produtos através de marca própria, em participação total ou parcial destas empresas.

Isto porque, com um investimento de risco calculado, estas marcas são o motor de inovação no seio destas entidades. Testam-se processos, dinâmicas e tácticas comerciais. Renova-se, melhora-se e aprende-se. Passos simples e básicos para que os catálogos não ganhem pó, para que as articulações mentais de quem comanda não ganhem ferrugem e sobretudo que haja transformação, crescimento e sucesso.

Há porém exemplos de sucesso no meio industrial que anteviram ou se adaptaram às consequências que esta estratégia de produção exclusiva para outrem pode trazer. A indústria do calçado e têxtil é o exemplo mais badalado. Sofrendo uma crise profunda, a sobrevivência do mais apto trouxe a nós as empresas mais inovadoras, tecnológicas e adversas ao risco, que apostaram em marcas próprias na altura certa.

O made in Portugal está a subir na escala de mercado, mas caminhamos para um mercado global onde a competitividade é grande e as vantagens territoriais voláteis. Senão conseguirmos criar uma identidade de produção forte, em breve não temos a vantagem de preço de outrora. É que havendo como produzir parece que o que falta é o design. Sim, design precisa-se.

 

Turismo e table ware

Muito se tem falado sobre o motor económico que o turismo está a ser para Portugal. Que apesar de sazonal mexe com a economia. Que apesar de ser como uma maré enche a praia. Que apesar de haver nuvens o sol cá ainda bronzeia. Os mais beneficiados são sectores como a restauração, a hotelaria e os transportes. Os mais prejudicados são os indígenas que se vêm excluídos do centros urbanos das suas cidades.

Sendo o design de produto uma actividade económica ligada à indústria, o turismo tem também sido o seu forte motor. Por um lado tem usado as mesmas estratégias de marketing de valorização territorial e cultural que promove o país enquanto destino turístico. Ou seja, Portugal e as suas indústrias têm se mostrado no exterior e demonstrado capazes de estar a par com quaisquer manufactura mundial, o que é bom para quem produz e é bom para a EU que procura produzir bem e, preferencialmente, barato. Isto faz com que as empresas ganhem confiança e liquidez e comecem a apostar em inovar.

Por outro lado, a procura incessante pelo autêntico e genuíno que a competitividade no turismo obriga levou a que toda um cultura do very typical fosse revista, já que a melhor forma de crescimento do sector passa por subir a quantidade de dinheiro gasto por estrangeiros que visitam este rectângulo à beira mar. Isto levou à diversificação e especificação da oferta.

Estando o designer já habituado a ser um instrumento de acrescimento de valor, este foi contratado para aumentar as facturas pagas nos restaurantes e hotéis por esse patchwork de regiões que cobre este território.

Copos, malgas, taças, pratos, centros de mesa, decoração integral, renovação, interiores, food designers, projectos comissionados, identidades gráficas e comunicação de redes sociais, e mais pratos, malgas e taças foram alguns dos muitos projectos e produtos que este sector consumiu.

Para além de aumentarem a fatia de negócios no mercado interno às empresas dos sectores de hotelaria e cristalaria, estes projectos têm também dado trabalho a muitos ateliers e marcas pequenas de dimensão uni-pessoal. Muitos destes restaurantes e hotéis e hostéis optaram por contratar designers que desenhassem mas que também produzissem produtos distintos, sobretudo na área de louça de mesa.

A procura deste tipo de produtos utilitários provocou uma explosão de designer makers, ou seja designers fazedores que são responsáveis pela produção das próprias peças. A grande procura provocou mesmo a explosão do movimento de designer makers em Portugal.

A independência na criação, já que o designer fica responsável por projectar e produzir, é um grande chamariz para uma geração que não ficou à espera que a indústria a contratasse.

Assim, como os produtos que o boom turístico potenciou se tratam sobretudo de table ware, ou louça de mesa, são inúmeros os ateliers/oficinas de cerâmica que têm despontado um pouco pelo país inteiro. Tratam de projectar e produzir estas taças, malgas e pratos que os restaurantes e hotéis do país precisam para se evidenciarem e destacarem num sector cada vez mais competitivo.

Há nas mudanças sócio-culturais oportunidades económicas para todos os sectores. Os designers normalmente são ávidos observadores destas mudanças, já que são permeáveis à inovação. Esperemos que muito ainda mude e que apesar do mau tempo amanhã faça sol.

Coisas #15_A correr para um estilo de vida

Que um estilo de vida saudável é preconizado por médicos e pelo Popeye já sabíamos. Sendo “a saúde o mais importante”, espectável será que se dê alguma importância à questão. Agora, se antes era o divino que comandava a vida, regrando e avaliando-a numa métrica teológica, o credo moderno apoia-se neste culto da saúde, onde o corpo é a expressão máxima da religião, sendo que se relevam aspectos mundanos como a alimentação, exercício físico e hábitos de consumo, só para citar alguns.

Ou seja, se antes ao Domingo se pregava que a Gula é um pecado capital, agora avalia-se entre o térreo e o etéreo na escolha do melhor iogurte bio para combinar com a granola da Quinta, porque faz bem à pele.

No fundo segue-se um trajecto espiritual mais terreno e mais individual, ligado ao corpo, à saúde e ao bem estar, cuidando o que comemos e os hábitos que praticamos.  Isto é já uma religião com milhares de seguidores, com encontro não na igreja ao Domingo, mas nas pistas de corrida de manhã, na Decatlhon e sob a efígie hastagiana de #healthylifestyle, #bitch.

Kanye West X Adidas
Kanye West X Adidas

Nem que seja para cagar passear o cão, qualquer moderado moderno cidadão da urbe preza-se por ter umas sapatilhas de corrida. Para além de serem confortáveis e especialmente aerodinâmicos estes chanatos são verdadeiros contemporâneos ícones da moda. Há modelos que custam o mesmo que uns sapatos Prada, há uma concorrência acérrima entre os gigantes do desporto, que vêm no #healthylifestyle uma oportunidade única para aumentarem o seu mercado alvo, há cada vez mais desfiles de moda em que são apresentadas colecções de sapatilhas de corrida, enfim, começo a pensar que no próximo casamento vão estar todos de yoga pants e lycras impermeáveis. E eu de fato, porque ninguém me avisou.

Model on the catwalk, fashion detail Alexander Wang show, Spring Summer 2017, New York Fashion Week, USA - 10 Sep 2016
Alexander Wang show, Spring Summer 2017, New York Fashion Week, USA – 10 Sep 2016

De facto este tipo de calçado já ultrapassou há muito a função de re-rotular qualquer indivíduo com mais de 35 como “jovem”. É já vinculativo a um estilo de vida. Nascem consumidores cuidadosos que atentam aos OGM (organismo geneticamente modificado), vêm o documentário Before the Flood e falam de cárdio e recuperação muscular como quem comenta o tempo. Talvez por isso sejam tão populares estes produtos. Talvez por isso seja tão popular esta cultura, do estares bem com o teu corpo e sentires-te bem nessa pele. Talvez por isso sejam tão populares as selfies em ginásios, porque sem prova não há crime.

 

 

Cultura do Bacalhau/Sardinha

A cultura portuguesa sofre da dicotomia gastronómica bacalhau/sardinha. Sendo ambos pratos/peixes exemplificativos do que de melhor se pode comer neste território, têm também cada um as suas especificidades que analogamente podem ser usadas para ilustrar alguns aspectos culturais.

Se por um lado o bacalhau vem da Noruega, já a sardinha é endógena, ou seja, vive e cresce nas águas portuguesas, e isto por si já quer dizer muito.

As imensas águas lusitanas, oceânicas e profundas que nos orgulham pelo tamanho desproporcionalmente grande são o habitat da sardinha, e não do salmonete. 

Enraizado nas nossas cozinhas temos também um peixe que gosta é de nadar no frio da Noruega e que habita alegremente as cozinhas mediterrânicas das terras lusitanas. Como peixe na água.

bacalhau-da-noruega-uma-paixao-que-nos-une_max

Há quem goste de bacalhau e quem goste de sardinha, não havendo porém quem na ceia de Natal se preste a uma sardinha nem quem pergunte onde se fritam os pastéis numa festa de aldeia. A cada prato seu peixe. Mas também verdade é que a sardinha por nós pescada vem dali ao lado, sendo o bacalhau voado(?) para a nossa mesa. Há aqui diferenças geográficas e de origem.

800

A ideia da sardinha como símbolo das festas de Lisboa e o seu consequente concurso de ilustração tem um autor, o atelier de design gráfico Silva! Designers.

Talvez um pouco pelo arrasto do turismo, que amplifica comercialmente alguns ícones e símbolos nacionais, o trabalho de iconografia cultural tem sido feito e tem de ser percebido como a face mais, imediatamente, visível de uma cultura, nacional. Fico deveras aliviado que o bacalhau (ainda) não tenha passado da categoria de confraria, e que as sardinhas da Bordallo Pinheiro povoem prateleiras de bibelots pelo mundo fora. Se a opção fosse um bacalhau cerâmico tínhamos noruegueses a sentirem-se demasiado em casa.

É que aqui, na imagem genuína que o turismo pede, há uma espécie de reconstrução facial benéfica para o país, porque nos permite enterrar totems e concordar com ídolos, sendo ainda assim genuinamente daqui. Não vamos ser nem a Suíça nem a Sillicon Valley da Europa mas podemos ser o país da calçada, do bom vinho, da cortiça e, claro, da sardinha.

O que isto simboliza é sobretudo a forma de pensar em coisas daqui como identitárias de uma cultura. Indo mais longe, é a forma de pensar daqui. Seja ao nível da representatividade material ou da inovação os processos endógenos para lá chegar são os únicos que parecem intrínsecos. Numa balança do que entra e do que sai nunca se vai conseguir exportar bacalhau seco ou ensinar um norueguês a assar sardinhas.