Liberdade Incondicional

(texto originalmente publicado no Jornal de Leiria na edição de 03-05-2019, que pode ser consultado aqui)

Carta branca para criar, é o que qualquer profissional das áreas da criação quer. Significa muitas vezes não ter constrangimentos nem grilhões que condicionem o desenvolvimento de propostas. Este é um ideal de liberdade criativa que muitos colegas ambicionam mas que muitas vezes não provoca sequer os melhores resultados.

Somos também o contexto, e precisamos de esse envolvente para podermos criar da melhor forma. Isto é, aquilo que povoa o nosso ambiente faz tanto parte do que fazemos como aquilo que almejamos, pelo que a liberdade incondicional não existe.

Há uns anos, numa entrevista de emprego, perguntaram me como é que definiria a criatividade, no geral. Era uma espécie de um teste, onde a minha ingenuidade de recém licenciado veio ao de cima.

Dei como exemplo uma metáfora que já tinha pensado antes, envolvendo a prisão e o deserto.

Na prisão tentamos criativamente arranjar soluções para sair dali e fugir aos constrangimentos existentes, para retornar à  liberdade. Enganar os guardas, serrar as grades ou escavar um túnel são tudo estratégias empregues para ludibriar o contexto onde se está inserido. Neste caso, no fundo procura-se uma alternativa ao contexto que se tem.

Já no deserto temos de saber para onde vamos. Ou seja, se fôssemos deixados no meio do deserto seríamos obrigados a escolher uma direcção para alcançarmos um sítio em que nos sentíssemos seguros. Com base na nossa experiência anterior e conhecimentos sobre o contexto íamos tentar tomar a melhor decisão para percorrermos esse caminho. Resumindo procura-se criar uma realidade a partir de um aparente vazio.

Estes casos extrapolados são meramente metáforas, ou seja, não iremos encontrar estas situações extremo no dia a dia já que normalmente tanto os pedidos como os projectos propostos nascem de uma realidade existente que tem características misturadas.

E a prisão está quase sempre no meio de um deserto.

 

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Design Activista

(Texto originalmente publicado no Jornal de Leiria, Edição de 21 de Fevereiro de 2019, podendo ser consultado aqui )

O design enquanto acção/verbo, do inglês – to design, significa planear algo e é comum a disciplinas ligadas à prática de projecto, como a arquitectura ou a engenharia.

Ou seja, um projecto que envolve o design de algo, seja uma praça pública, um centro de artes comunitário ou um vaso em cerâmica, promove o planeamento, futuro, do contexto em que existirá, sendo este económico, cultural ou meramente material.

Nesta perspectiva, já que o projecto incide sobre um problema, oportunidade ou necessidade que foi encontrada, desejada ou determinada por um grupo de pessoas, e que se procura que se mude, o design enquanto actividade está mais presente nas nossas vidas do que possamos pensar.

Sobretudo em contextos de co-criação, onde a comunidade é chamada a intervir, opinando ou agindo sobre o projecto em questão, todos são designers. Disto é um bom exemplo a plataforma de desenvolvimento comunitário OpenIDEO da agência criativa e de inovação social IDEO, que lança continuamente desafios a comunidades locais e globais para em conjunto pensar em soluções simples mais desafiadoras.

A exposição das comunidades a ferramentas de inovação social, como as redes sociais ou o crowdfunding, provoca inequivocamente a mudança sustentada e apoiada, já que une pessoas que estariam à partida impossibilitadas de se comunicarem. Como consequência, causas comuns, como o movimento #metoo ou o Ocean Clean Up project, têm mais ressonância global e tornam os seus proponentes em activistas.

Apesar do activismo ter tido historicamente uma conotação negativa, empregando tácticas de boicote ou bloqueio e da crítica por si só ser vista como infrutífera, tenho assistido a uma mudança de mentalidades na aceitação de causas fracturantes, sejam ambientais ou sociais.

Neste sentido, o design pode contribuir decisivamente para as mudanças da sociedade, como diz Ezio Manzini, não apenas fazendo reivindicações mas criando ferramentas e contextos propícios e dispô-los ao alcance da comunidade.

Design Deliberado

(texto originalmente publicado no Jornal de Leiria de 17-01-2019 – https://www.jornaldeleiria.pt/opiniao/design-deliberado-9734)

Construir algo é um acto deliberado. Surge de uma reflexão sobre um determinado contexto/problema e parte para uma tomada de decisão com um objectivo definido em mente. Isto é, um ato deliberado é uma acção consciente. Consciente das suas consequências.

O processo criativo do design é deliberado, resultando de um conjunto de decisões informadas que procuram projectar uma determinada proposta, sendo esta, por exemplo, um objecto utilitário ou uma sinalética para um espaço público.

Esta proposta é deliberada e deverá ser consciente das suas consequências..

Apesar de haverem consequências predeterminadas, um abre caricas serve para abrir cápsulas e foi com esse desígnio que foi desenhado, há porém consequências indeterminadas, ou imprevisíveis, tanto ao nível semiótico como ao nível funcional. Ou seja, um abre cápsulas pode ser percepcionado como um símbolo de desperdício material ou um isqueiro pode servir a mesma função de um abre cápsulas, se manejado como tal.

Há, assim, muitos aspectos destas tomadas de acção que não são controláveis e obedecem a dinâmicas culturais orgânicas, já que todas as acções têm consequências, imprevisíveis. A nossa necessidade de controlo é por isso infrutífera, já que o alcance das nossas acções, como designers, ultrapassa o desígnio inicialmente proposto.

Sendo que o design enquanto atitude, por vezes ativista, intervencionista mas sobretudo deliberada é uma conquista epistemológica à ditadura da estética, do design de mobiliário, iluminação e decoração consagrado pelo movimento italiano de meio do século, as questões que importam a uma disciplina que se ocupa da ideação e construção do mundo físico que habitamos são hoje diferentes de há uma, duas ou três décadas.

Para os designers de hoje em dia as preocupações sociais, ecológicas e económicas surpassam aquelas de uma narrativa estética e formal que anteriormente povoava o discurso da mentalidade dominante e que se vê agora, como em muitas outras áreas da sociedade, sem chão.

Pós-Plástico

(Texto originalmente publicado no Jornal de Leiria a 13-12-2018 https://www.jornaldeleiria.pt/opiniao/pos-plastico-9609)

Estamos numa corrida contra o plástico. É obrigatório Impedir que as embalagens e produtos descartáveis em plástico acabem nos oceanos mas também limpar os resíduos que se têm acumulado nos últimos anos.  Uma sociedade que olha para as consequências de um sobrepopulamento mundial precisa de ter um plano para o que virá depois de resolvermos estes problemas. Como será o mundo sem plástico? Qual a utopia que perseguimos, quais são as alternativas e as perspectivas?

Primeiro há que olhar para a trajetória deste material. Se inicialmente, nos anos 40/50, a utilização de resinas plásticas para a conformação de objectos representava uma inovação digna dos objetos mais nobres ou revolucionários, como por exemplo os telefones Bell desenhados por Henry Dreyfuss. Posteriormente, já nos anos 60, houve a necessidade de aliar a liberdade de pensamentos à criação de formas futuristas como a cadeira Panton de Verner Panton, a primeira em plástico a ser produzida numa só peça, ou os conjuntos de mobiliário de Joe Colombo, complexas máquinas domésticas modernas.

Assistia-se à materialização da utopia moderna.

Porém, como material inovador o plástico foi substituindo alguns materiais nos objectos do nosso quotidiano. Copos, pratos, mobiliário e até carros foram sendo produzidos em plástico. Objectos presentes na exposição permanente de design do MAD Paris, que os apresenta, numa perspectiva optimista, como a quimera do futuro.

Contudo, a massificação dos processos produtivos, que procurou satisfazer a crescente demanda de uma população exponencialmente consumista, permitiu tornar este material barato e empregá-lo em objectos de uso descartável. De 1950 a 2016 passou-se de uma utilização de 1,5 milhões de toneladas de plástico para 335 milhões de toneladas.

É preciso envisionar realidade alternativas, como regulação mais presente, uma consciencialização mais presente e opções biodegradáveis, mas também criar cenário onde o plástico já não é uma comodidade mas um privilégio. E aqui o design pode ajudar.

Eco atitude

(texto originalmente publicado no Jornal de Leiria, edição de 15 de Novembro de 2018)

Hoje em dia, temos a consciência que o sobre consumo vai, se continuar, acabar com o planeta. Tentamos mudar comportamentos para fazer a nossa parte, contribuindo para que o nosso impacte seja menor mas, apesar disso, provavelmente não vai chegar.

Apesar de haver medidas sistémicas, como as restrições que os reguladores impõem, sejam nas lâmpadas de tungsténio ou nos consumíveis descartáveis de plástico, estas apenas operam nos produtos já existentes.

É uma responsabilidade enorme desenhar um objecto novo. Sobretudo agora, onde existe um sistema frágil para o qual contribuímos. Neste contexto, o design é, segundo Viktor Papanek, autor do livro “Design for a Real World” uma “poderosa ferramenta com a qual o Homem manipula as ferramentas e os ambientes (e, por extensão, a sociedade e a si mesmo) ”.

Dadas evidências como o aquecimento global, para além de ser uma responsabilidade é um obrigação ter em mente, quando se desenvolve um novo produto, questões como a sustentabilidade dos produtos, materiais e processos, incluídos numa economia que se pretende circular, ou seja que haja um reaproveitamento do “berço ao berço”, onde o material de um produto que é descartado serve para dar vida a um novo produto.

A filosofia de aproveitamento do ambiental está presente em autores como McDonough e Braungart, autores do livro “Cradle to Cradle”. Nele os autores sugerem num dos capítulos, que um dos principais processos de desintegração dos materiais é através do uso.

Da mesma forma que o mar tritura a pedra e, com o tempo, a transforma em areia, também as coisas que usamos se gastam e se dispersam nos ambientes que habitamos. Já pensaste ao que aconteceu à sola gasta daquelas sapatilhas que já não servem para muito? Pois é, apesar de a sapatilha poder ser reciclada ou processada pelos processos normais, o material da sola foi lentamente desgastado pelo chão que pisamos, transformando-se em pequenos grânulos que foram para o ambiente, sendo integrados na água no ar e talvez na terra circundante.

Estas micropartículas, ou microplásticos, estão agora em todo lado. Começando a aparecer nos organismos de seres humanos através da ingestão de alimentos contaminados.

Açúcar

(texto originalmente publicado no Jornal de Leiria, edição de 30 de Agosto de 2018. Pode ser consultada aqui https://www.jornaldeleiria.pt/opiniao/acucar-9176)

O açúcar provoca em nós a sensação de prazer, rápido e eficaz. Não é de estranhar que, dada a escolher, uma criança preferiria um chocolate a uma sopa. Isto porque seguiria o seu instinto de prazer imediato sem fazer o necessário, e parental, raciocínio de pesar na balança o que melhor fará à sua saúde a longo prazo.

Correntemente, andamos a ser bombardeados com chocolates e ducheses de prazer imediato, seja na forma de notícias ou de opiniões que nos precipitam a gostar de forma compulsiva.

São notícias, opiniões e/ou factos aos quais acorrem a maioria. Seja pelo insólito, pelo invulgar, anacrónico, ou simplesmente curiosidade. Acontece que hoje em dia consumimos demasiadas notícias que em muito pouco contribuem para construção de uma dieta saudável. Como aquele bolinho que comi ao lanche, não tinha nada de ir carregar naquela notícia sobre míscaros do pinhal. Estraga a dieta, e ao invés de desbloquear uma conversa com, por exemplo, as consequências da redução do IRS para quem, como na minha geração, emigrou nos anos da crise, vou simplesmente falar de míscaros do pinhal. Foi o que andei a comer/ler, ia falar de quê? Do tempo?

Ora, sejam as causas mais ou menos sabidas, isto tem consequências. Uma delas é a de que o açúcar vende mais. Encontramos mais bolos que barras nutritivas. O que faz com que com que a comunidade ande mais doce e se incline para manifestar opiniões que, grosso modo, sejam também elas mais doces. Mas temos mesmo de falar apenas de bolos e chocolates? Fazendo o jeito ao MEC, onde é que ficou a torrada?

Como se pode construir uma sociedade avançada, tolerante e progressiva, se não houver direito a exprimir uma opinião agridoce ou amarga, no fundo diferente? Segundo escreve Bryan W. Van Norden no artigo “The Ignorant Do Not Have a Right to an Audience” no jornal The New York Times, tem de haver uma distinção entre o que é liberdade de discurso e o direito a audiência, sendo que temos todo o direito à nossa opinião, mas o acesso à audiência deveria ser restrito a opiniões nocivas à sociedade. Ou seja, claro que podemos falar de bolos, se também partilharmos as vantagens nutritivas da quinoa.

No fundo é tudo um problema de açúcar.

Comunidade e relevância

(Artigo publicado no Jornal de Leiria de 26-06-2018, https://www.jornaldeleiria.pt/noticia/comunidade-e-relevancia-8999)

As comunidades são grupos sociais que têm algo em comum, como valores, identidade ou normas, e que muitas vezes partilham um espaço, de forma permanente ou temporária, sendo que esta partilha de intenções, necessidades ou riscos afecta a identidade dos participantes e o seu grau de coesão. Existem vários tipos de comunidade, distinguidos sobretudo por localização, identidade e duração temporal. Ou seja, podemos ter comunidades de bairros, comunidades de determinadas crenças religiosas ou uma comunidade efémera, de pessoas que estão juntas umas horas durante uma experiência, como um concerto, um evento ou simplesmente a relaxar na praia.

Diria que um ponto comum das comunidades é surgirem de algo que seja relevante aos membros, seja um local, um conjunto de valores culturais ou um espaço de tempo. Esta relevância surge de algo que esteja ligado ao momento do agora e que seja vantajoso para alguma das partes. As comunidades geram-se em torno daquilo que é relevante para os membros.

Posto isto, há algumas estratégias para ampliar a relevância de circunstâncias sociais, sobretudo tendo em conta os diferentes contextos para os quais se procuram criar ou trazer comunidades.

A este propósito foi-me aconselhada a leitura do livro “The Art of Relevance”, de Nina Simon. Numa palestra TED X Palo Alto a autora expõe algumas das circunstâncias em que, como directora do Santa Cruz Museum of Art & History, necessitou de usar estratégias fora da caixa para trazer público às exposições e eventos que organizava. No fundo as suas observações e acções vão sempre de encontro a tornar relevante o que se estava a passar na instituição que dirigia, dirigindo-se às duas comunidades que se desenvolviam em torno do Museu, os insiders e os outsiders.

Hoje em dia uma comunidade não se junta apenas em torno de um forno comum ou de terrenos baldios mas na sua génese temos circunstâncias mais complexas para as suas formações. Mas no fundo, estas surgem da necessidade de partilhar algo que lhes acrescente informação, dê significados e que faça a diferença.