Eco atitude

(texto originalmente publicado no Jornal de Leiria, edição de 15 de Novembro de 2018)

Hoje em dia, temos a consciência que o sobre consumo vai, se continuar, acabar com o planeta. Tentamos mudar comportamentos para fazer a nossa parte, contribuindo para que o nosso impacte seja menor mas, apesar disso, provavelmente não vai chegar.

Apesar de haver medidas sistémicas, como as restrições que os reguladores impõem, sejam nas lâmpadas de tungsténio ou nos consumíveis descartáveis de plástico, estas apenas operam nos produtos já existentes.

É uma responsabilidade enorme desenhar um objecto novo. Sobretudo agora, onde existe um sistema frágil para o qual contribuímos. Neste contexto, o design é, segundo Viktor Papanek, autor do livro “Design for a Real World” uma “poderosa ferramenta com a qual o Homem manipula as ferramentas e os ambientes (e, por extensão, a sociedade e a si mesmo) ”.

Dadas evidências como o aquecimento global, para além de ser uma responsabilidade é um obrigação ter em mente, quando se desenvolve um novo produto, questões como a sustentabilidade dos produtos, materiais e processos, incluídos numa economia que se pretende circular, ou seja que haja um reaproveitamento do “berço ao berço”, onde o material de um produto que é descartado serve para dar vida a um novo produto.

A filosofia de aproveitamento do ambiental está presente em autores como McDonough e Braungart, autores do livro “Cradle to Cradle”. Nele os autores sugerem num dos capítulos, que um dos principais processos de desintegração dos materiais é através do uso.

Da mesma forma que o mar tritura a pedra e, com o tempo, a transforma em areia, também as coisas que usamos se gastam e se dispersam nos ambientes que habitamos. Já pensaste ao que aconteceu à sola gasta daquelas sapatilhas que já não servem para muito? Pois é, apesar de a sapatilha poder ser reciclada ou processada pelos processos normais, o material da sola foi lentamente desgastado pelo chão que pisamos, transformando-se em pequenos grânulos que foram para o ambiente, sendo integrados na água no ar e talvez na terra circundante.

Estas micropartículas, ou microplásticos, estão agora em todo lado. Começando a aparecer nos organismos de seres humanos através da ingestão de alimentos contaminados.

Anúncios

Açúcar

(texto originalmente publicado no Jornal de Leiria, edição de 30 de Agosto de 2018. Pode ser consultada aqui https://www.jornaldeleiria.pt/opiniao/acucar-9176)

O açúcar provoca em nós a sensação de prazer, rápido e eficaz. Não é de estranhar que, dada a escolher, uma criança preferiria um chocolate a uma sopa. Isto porque seguiria o seu instinto de prazer imediato sem fazer o necessário, e parental, raciocínio de pesar na balança o que melhor fará à sua saúde a longo prazo.

Correntemente, andamos a ser bombardeados com chocolates e ducheses de prazer imediato, seja na forma de notícias ou de opiniões que nos precipitam a gostar de forma compulsiva.

São notícias, opiniões e/ou factos aos quais acorrem a maioria. Seja pelo insólito, pelo invulgar, anacrónico, ou simplesmente curiosidade. Acontece que hoje em dia consumimos demasiadas notícias que em muito pouco contribuem para construção de uma dieta saudável. Como aquele bolinho que comi ao lanche, não tinha nada de ir carregar naquela notícia sobre míscaros do pinhal. Estraga a dieta, e ao invés de desbloquear uma conversa com, por exemplo, as consequências da redução do IRS para quem, como na minha geração, emigrou nos anos da crise, vou simplesmente falar de míscaros do pinhal. Foi o que andei a comer/ler, ia falar de quê? Do tempo?

Ora, sejam as causas mais ou menos sabidas, isto tem consequências. Uma delas é a de que o açúcar vende mais. Encontramos mais bolos que barras nutritivas. O que faz com que com que a comunidade ande mais doce e se incline para manifestar opiniões que, grosso modo, sejam também elas mais doces. Mas temos mesmo de falar apenas de bolos e chocolates? Fazendo o jeito ao MEC, onde é que ficou a torrada?

Como se pode construir uma sociedade avançada, tolerante e progressiva, se não houver direito a exprimir uma opinião agridoce ou amarga, no fundo diferente? Segundo escreve Bryan W. Van Norden no artigo “The Ignorant Do Not Have a Right to an Audience” no jornal The New York Times, tem de haver uma distinção entre o que é liberdade de discurso e o direito a audiência, sendo que temos todo o direito à nossa opinião, mas o acesso à audiência deveria ser restrito a opiniões nocivas à sociedade. Ou seja, claro que podemos falar de bolos, se também partilharmos as vantagens nutritivas da quinoa.

No fundo é tudo um problema de açúcar.

Comunidade e relevância

(Artigo publicado no Jornal de Leiria de 26-06-2018, https://www.jornaldeleiria.pt/noticia/comunidade-e-relevancia-8999)

As comunidades são grupos sociais que têm algo em comum, como valores, identidade ou normas, e que muitas vezes partilham um espaço, de forma permanente ou temporária, sendo que esta partilha de intenções, necessidades ou riscos afecta a identidade dos participantes e o seu grau de coesão. Existem vários tipos de comunidade, distinguidos sobretudo por localização, identidade e duração temporal. Ou seja, podemos ter comunidades de bairros, comunidades de determinadas crenças religiosas ou uma comunidade efémera, de pessoas que estão juntas umas horas durante uma experiência, como um concerto, um evento ou simplesmente a relaxar na praia.

Diria que um ponto comum das comunidades é surgirem de algo que seja relevante aos membros, seja um local, um conjunto de valores culturais ou um espaço de tempo. Esta relevância surge de algo que esteja ligado ao momento do agora e que seja vantajoso para alguma das partes. As comunidades geram-se em torno daquilo que é relevante para os membros.

Posto isto, há algumas estratégias para ampliar a relevância de circunstâncias sociais, sobretudo tendo em conta os diferentes contextos para os quais se procuram criar ou trazer comunidades.

A este propósito foi-me aconselhada a leitura do livro “The Art of Relevance”, de Nina Simon. Numa palestra TED X Palo Alto a autora expõe algumas das circunstâncias em que, como directora do Santa Cruz Museum of Art & History, necessitou de usar estratégias fora da caixa para trazer público às exposições e eventos que organizava. No fundo as suas observações e acções vão sempre de encontro a tornar relevante o que se estava a passar na instituição que dirigia, dirigindo-se às duas comunidades que se desenvolviam em torno do Museu, os insiders e os outsiders.

Hoje em dia uma comunidade não se junta apenas em torno de um forno comum ou de terrenos baldios mas na sua génese temos circunstâncias mais complexas para as suas formações. Mas no fundo, estas surgem da necessidade de partilhar algo que lhes acrescente informação, dê significados e que faça a diferença.

Praia Comum

(Texto originalmente publicado no Jornal de Leiria, de 22-06-2018. Para consulta online: https://www.jornaldeleiria.pt/opiniao/praia-comum-8851)

A gestão dos recursos comuns é um espaço de encontro da opinião pública, já que o usufruto é transversal à sociedade.

Emprestaram-me um livro muito interessante intitulado “The Zero Marginal Cost Society” de Jeremy Rifkin, onde o autor desenvolve e liga o conceito dos “commons” ( bens comuns colaborativos) ao uso e desenvolvimento da internet e sobretudo da internet of things (IoT) para uma sociedade com a mais baixa pegada ecológica possível.  Sendo um livro eminentemente de cariz tecnológico, o autor apresenta porém alguns conceitos de aplicação pertinente noutros contextos, como a noção de recursos comuns.

Este conceito de “commons” é historicamente o que em português denominamos de morgadios ou baldios de pastagem comunal, ou seja, terras que eram usadas por uma comunidade local. Este conceito, estudado inclusive pela Nobel em Economia Elinor Ostrom, remete para o uso colaborativo de bens comuns e de como a mutabilidade e adaptabilidade das soluções colaborativas encontradas pelos utilizadores contribuem para uma melhor relação entre o Homem e os Ecossistemas.

Traçando um paralelo entre este conceito e o design de espaços urbanos/públicos, podemos considerar um espaço público, construído e gerido como um bem comum, onde os equipamentos que o povoam providenciam aos utilizadores uma certa a mutabilidade de funções, necessárias para responder às necessidades e criar oportunidades de interacção e usufruto em espaços que se encontram vazios.

Ou seja, em locais públicos que se definem pelo vazio, como a praia ou uma praça, existem equipamentos e/ou sistemas que permitem a sua ocupação, tornando-os mais seguros, aprazíveis e sobretudo obedientes a um conjunto de regras que os torna comum.

A minha proposta é se num cruzamento entre arquitectura e engenharia social pode o design de equipamentos urbanos ou ferramentas de utilização comunitária promover a interacção dos utilizadores com o espaço público, aumentando assim a procura de soluções colaborativas de forma orgânica e de usufruto comum.

Simplificando, quero encontrar soluções para que nas praias que ocupamos temporariamente por esse Verão fora hajam equipamentos e/ou produtos que não nos obriguem a levar o chapéu, corta vento e cadeira, geladeiras, etc. para a praia.

Biótopo Cultural

(texto originalmente publicado no Jornal de Leiria, de 17-05-2018. Para consulta online: https://www.jornaldeleiria.pt/opiniao/biotopo-cultural-8689)

Partindo de uma desvantagem natural, o ser humano usou a estratégia de, por meio da cultura, adaptar o meio ambiente ao seu corpo. Como instinto de sobrevivência desenvolveu a sua capacidade de adaptação e manipulação dos elementos naturais, transformando o ambiente vivido numa junção de elementos existentes e criados.

Esta constante alteração do meio e superação da condição ambiental provocou a criação de ecossistemas humanos, sem análogos naturais, com características próprias da época geológica actual, a do Antropoceno. Estamos numa época em que o ser humano e as suas actividades são o centro do planeta, sendo o maior contribuidor para as alterações dos sistemas em que nos inserimos.

Em Ecologia, um biótopo é uma região que apresenta regularidade nas condições ambientais e nas populações animais e vegetais e corresponde à menor parcela de um habitat que é possível medir geograficamente.

Nesta perspectiva de uma ecologia humana, onde se procura aprofundar a relação do ser humano com o seu ambiente natural, podemos definir um biótopo cultural, onde se atenta às condicionantes ambientais e culturais, unindo-as num conceito só. É uma relação recíproca onde o habitat influencia as características dos habitantes e vice-versa.

Ou seja, esta ideia de biótopo cultural, que pode tanto ser aplicado à nossa cidade ou à nossa casa, serve sobretudo para atestar que o espaço que nos envolve tem características únicas que terão de ser tidas em conta, mas que a construção do nosso habitat está a cargo dos seus habitantes.

Como a necessidade de criar o mundo à nossa imagem, com o que está disponível, é própria do ser humano é nesta dualidade de influências que se encontram oportunidades de construção cultural de habitats que procurem por um lado aproveitar o que se encontra disponível, mas por outro mitigar e potenciar o que está em falta, contribuindo como um todo para o desenvolvimento de um ecossistema cultural dinâmico, orgânico e saudável.

Sem querer deixar o caso ao acaso, diria que o melhor é que se deixe a natureza fazer o seu trabalho, sendo que as árvores são plantadas e as culturas regadas.

Castelos de Areia

Tenho a impressão que a maioria das pessoas gosta de ganhar prémios. É um cunho de sucesso. No caso da marcas de design, chamemos-lhe assim, é uma distinção competitiva ter um selo atribuído por uma entidade internacional.

Tenho a impressão que a maioria das pessoas gosta de ganhar prémios. É um cunho de sucesso. No caso da marcas de design, chamemos-lhe assim, é uma distinção competitiva ter um selo atribuído por uma entidade internacional.

Se inicialmente estes Awards apenas reconheciam o melhor dos melhores e serviam como um statement de progresso da disciplina do design, mostrando e promovendo as práticas vanguardistas e os projectos mais inovadores, nos dias que correm a sua proliferação dilui o impacto que têm e parece que se não se ganham dois ou três por produto, que se está a falhar enquanto empresa/designer.

Dizia-me um professor há uns tempos que Portugal era dos países, em proporção, com mais prémios de design atribuídos a produtos ou designers portugueses. Ena!

Preise_Ausz_CON_alle_preise_12.jpg

Há no entanto que fazer a distinção,  já que há prémios e prémios, concursos e concursos. Uns mais conhecidos que outros, têm também métodos de aferição diferentes. Nuns casos a selecção é feita por um júri internacional experiente, noutros por voto popular, ou ainda em sistemas mistos. Agora, comum a quase todos é a taxa de inscrição que ao invés de ser apenas dissuasora torna estas entidades premiadoras óptimos negócios.

Good Design Awards, ID Award, ICFF, German Design Awards, Red Dot Design, A Design Awards, etc. , são apenas alguns dos prémios onde é exigida um valor de inscrição para participar. Entre 200€ a 600€ destinam-se sobretudo a empresas, cujo valor económico associado aos produtos que pretendem “validar” faz justificar a participação.

É curioso que nunca vi uma Channel ou uma Dior serem mais relevantes por terem ganho um prémio atribuído a um dos seus designers. Muito menos participarem em concursos/prémios para verem os seus produtos reconhecidos. Num segmento de luxo que privilegia o valor cultural dos objectos vendidos, a validação não advém de entidades externas, mas da franca capacidade das suas equipas criativas de criarem desejo, de criarem uma identidade própria.

Esta ideia de ter de ganhar um prémio na Alemanha para um produto valer alguma coisa incorre no já mantra de que para se suceder “tem que se ter reconhecimento lá fora”.

Acredito mais que o diálogo entre pares, a troca e partilha de conhecimentos e contactos e a organização de eventos, mostras e feiras nacionais se consegue criar uma comunidade com identidade própria forte, tanto ao nível do design mais industrial/empresarial como ao nível do atelier/oficina. Mas cada qual com a sua bicicleta, ou prémios, concurso, tarja..

 

 

Os travesseiros da casa do preto

Ao abrigo do programa IVLP, encontrei-me a começar uma viagem aos EUA no aeroporto Sá Carneiro a olhar para estes bolos como uma potencial oferta num jantar de hospitalidade que iríamos ter nas duas semanas seguintes.

IMG_20171202_092124(1).jpg

Como quebra gelo de conversa, pensei que acabaria por ilustrar uma das formas como encaramos o pós colonialismo em Portugal.

A propósito da relação dos EUA com a escravatura e as consequentes relações raciais vimos duas exposições muito interessantes.

Primeiramente estivemos no National Underground Railroad Freedom Center, em Cincinnati, Ohio. Dedicado à história da escravatura em geral, desde o seu início à  propagação por continentes americanos, contando as rotas feitas pelos barcos e como era a feita a transacção nos países de origem, a organização do museu era didáctica e interactiva, permitindo aprender de forma factual sobre uma assunto delicado da cultura mundial, e muito americana.  Dedicava também uma parte significativa ao período da guerra civil, onde o rio Ohio servia de fronteira entre a escravatura e a liberdade.

300px-Slave_pen_exterior
National Underground Railroad Freedom Center

Haviam algumas menções ao papel dos Portugueses no processo mas sem nunca diabolizarem uma ou outra nação, antes focando-se na escravatura e racismo.

A outra exposição que visitámos, em Kalamazoo, Michigan, era mais dedicada a produtos de consumo racistas, ou que usavam propaganda racista. A exposição, Intitulada “Hateful things” , era uma colecção itenerante de objectos racistas, com base na colecção do Jim Crow Museum of Racist Memorabilia da Ferris State University. Embora focando-se muito na figura de Jim Crow, esta colecção apresentava objectos de consumo diário como jogos, brinquedos, disfarces mas também sinais e avisos racistas. A farinha de panquecas “Aunt Jemima” ou o jogo “Ghettopoly” são exemplos ilustrativos do uso de figuras tipificadas como forma de perdurar um estereótipo.

aut jemmina.JPG
“Hateful things” exhibition

Pareceu-me que na sociedade americana, pelas pessoas com que falei e sítios que visitei, há um esforço necessário em abraçar a cultura africana, e de lhe dar a sua relevância justa. Foi pena não ter conseguido visitar o novo “National Museum of African American History & Culture” em Washington, mas tinha lista de espera de 6 meses.

Numa altura em que as definições de cultura tradicional portuguesa proliferam com forma de dar alimento ao consumo turístico urge pensar neste tema da aculturação da nossa presença colonial.