Açúcar

(texto originalmente publicado no Jornal de Leiria, edição de 30 de Agosto de 2018. Pode ser consultada aqui https://www.jornaldeleiria.pt/opiniao/acucar-9176)

O açúcar provoca em nós a sensação de prazer, rápido e eficaz. Não é de estranhar que, dada a escolher, uma criança preferiria um chocolate a uma sopa. Isto porque seguiria o seu instinto de prazer imediato sem fazer o necessário, e parental, raciocínio de pesar na balança o que melhor fará à sua saúde a longo prazo.

Correntemente, andamos a ser bombardeados com chocolates e ducheses de prazer imediato, seja na forma de notícias ou de opiniões que nos precipitam a gostar de forma compulsiva.

São notícias, opiniões e/ou factos aos quais acorrem a maioria. Seja pelo insólito, pelo invulgar, anacrónico, ou simplesmente curiosidade. Acontece que hoje em dia consumimos demasiadas notícias que em muito pouco contribuem para construção de uma dieta saudável. Como aquele bolinho que comi ao lanche, não tinha nada de ir carregar naquela notícia sobre míscaros do pinhal. Estraga a dieta, e ao invés de desbloquear uma conversa com, por exemplo, as consequências da redução do IRS para quem, como na minha geração, emigrou nos anos da crise, vou simplesmente falar de míscaros do pinhal. Foi o que andei a comer/ler, ia falar de quê? Do tempo?

Ora, sejam as causas mais ou menos sabidas, isto tem consequências. Uma delas é a de que o açúcar vende mais. Encontramos mais bolos que barras nutritivas. O que faz com que com que a comunidade ande mais doce e se incline para manifestar opiniões que, grosso modo, sejam também elas mais doces. Mas temos mesmo de falar apenas de bolos e chocolates? Fazendo o jeito ao MEC, onde é que ficou a torrada?

Como se pode construir uma sociedade avançada, tolerante e progressiva, se não houver direito a exprimir uma opinião agridoce ou amarga, no fundo diferente? Segundo escreve Bryan W. Van Norden no artigo “The Ignorant Do Not Have a Right to an Audience” no jornal The New York Times, tem de haver uma distinção entre o que é liberdade de discurso e o direito a audiência, sendo que temos todo o direito à nossa opinião, mas o acesso à audiência deveria ser restrito a opiniões nocivas à sociedade. Ou seja, claro que podemos falar de bolos, se também partilharmos as vantagens nutritivas da quinoa.

No fundo é tudo um problema de açúcar.

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