Biótopo Cultural

(texto originalmente publicado no Jornal de Leiria, de 17-05-2018. Para consulta online: https://www.jornaldeleiria.pt/opiniao/biotopo-cultural-8689)

Partindo de uma desvantagem natural, o ser humano usou a estratégia de, por meio da cultura, adaptar o meio ambiente ao seu corpo. Como instinto de sobrevivência desenvolveu a sua capacidade de adaptação e manipulação dos elementos naturais, transformando o ambiente vivido numa junção de elementos existentes e criados.

Esta constante alteração do meio e superação da condição ambiental provocou a criação de ecossistemas humanos, sem análogos naturais, com características próprias da época geológica actual, a do Antropoceno. Estamos numa época em que o ser humano e as suas actividades são o centro do planeta, sendo o maior contribuidor para as alterações dos sistemas em que nos inserimos.

Em Ecologia, um biótopo é uma região que apresenta regularidade nas condições ambientais e nas populações animais e vegetais e corresponde à menor parcela de um habitat que é possível medir geograficamente.

Nesta perspectiva de uma ecologia humana, onde se procura aprofundar a relação do ser humano com o seu ambiente natural, podemos definir um biótopo cultural, onde se atenta às condicionantes ambientais e culturais, unindo-as num conceito só. É uma relação recíproca onde o habitat influencia as características dos habitantes e vice-versa.

Ou seja, esta ideia de biótopo cultural, que pode tanto ser aplicado à nossa cidade ou à nossa casa, serve sobretudo para atestar que o espaço que nos envolve tem características únicas que terão de ser tidas em conta, mas que a construção do nosso habitat está a cargo dos seus habitantes.

Como a necessidade de criar o mundo à nossa imagem, com o que está disponível, é própria do ser humano é nesta dualidade de influências que se encontram oportunidades de construção cultural de habitats que procurem por um lado aproveitar o que se encontra disponível, mas por outro mitigar e potenciar o que está em falta, contribuindo como um todo para o desenvolvimento de um ecossistema cultural dinâmico, orgânico e saudável.

Sem querer deixar o caso ao acaso, diria que o melhor é que se deixe a natureza fazer o seu trabalho, sendo que as árvores são plantadas e as culturas regadas.

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Castelos de Areia

Tenho a impressão que a maioria das pessoas gosta de ganhar prémios. É um cunho de sucesso. No caso da marcas de design, chamemos-lhe assim, é uma distinção competitiva ter um selo atribuído por uma entidade internacional.

Tenho a impressão que a maioria das pessoas gosta de ganhar prémios. É um cunho de sucesso. No caso da marcas de design, chamemos-lhe assim, é uma distinção competitiva ter um selo atribuído por uma entidade internacional.

Se inicialmente estes Awards apenas reconheciam o melhor dos melhores e serviam como um statement de progresso da disciplina do design, mostrando e promovendo as práticas vanguardistas e os projectos mais inovadores, nos dias que correm a sua proliferação dilui o impacto que têm e parece que se não se ganham dois ou três por produto, que se está a falhar enquanto empresa/designer.

Dizia-me um professor há uns tempos que Portugal era dos países, em proporção, com mais prémios de design atribuídos a produtos ou designers portugueses. Ena!

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Há no entanto que fazer a distinção,  já que há prémios e prémios, concursos e concursos. Uns mais conhecidos que outros, têm também métodos de aferição diferentes. Nuns casos a selecção é feita por um júri internacional experiente, noutros por voto popular, ou ainda em sistemas mistos. Agora, comum a quase todos é a taxa de inscrição que ao invés de ser apenas dissuasora torna estas entidades premiadoras óptimos negócios.

Good Design Awards, ID Award, ICFF, German Design Awards, Red Dot Design, A Design Awards, etc. , são apenas alguns dos prémios onde é exigida um valor de inscrição para participar. Entre 200€ a 600€ destinam-se sobretudo a empresas, cujo valor económico associado aos produtos que pretendem “validar” faz justificar a participação.

É curioso que nunca vi uma Channel ou uma Dior serem mais relevantes por terem ganho um prémio atribuído a um dos seus designers. Muito menos participarem em concursos/prémios para verem os seus produtos reconhecidos. Num segmento de luxo que privilegia o valor cultural dos objectos vendidos, a validação não advém de entidades externas, mas da franca capacidade das suas equipas criativas de criarem desejo, de criarem uma identidade própria.

Esta ideia de ter de ganhar um prémio na Alemanha para um produto valer alguma coisa incorre no já mantra de que para se suceder “tem que se ter reconhecimento lá fora”.

Acredito mais que o diálogo entre pares, a troca e partilha de conhecimentos e contactos e a organização de eventos, mostras e feiras nacionais se consegue criar uma comunidade com identidade própria forte, tanto ao nível do design mais industrial/empresarial como ao nível do atelier/oficina. Mas cada qual com a sua bicicleta, ou prémios, concurso, tarja..