Cristalização da cultura

O processo de cristalização, em termos químicos, surge após um período de transformação, que implica mudanças dos materiais ao nível molecular.

Apesar de ser um processo orgânico, este é irreversível, tornando-se o material inerte, sem evolução, ou seja, mantém se assim para sempre.

Vejo os processos culturais de uma forma semelhante. Existe um processo orgânico no qual há uma transformação da matéria, cultural, até que está se cristaliza, podendo ser observada com a devida distância, arquivada, estudada, etc.

Posso dar o exemplo da cultura punk. Nasce de circunstâncias sócio-económicas específicas, apropriando se de ideologias anteriores, esta cria, sobretudo a partir da expressão musical, uma cultura transversal que ocupa hoje um léxico povoado por termos como surrealista, dadaísta ou metaleiro.

Esta cristalização de que falo, podendo também ser denominada de rótulo, designação, etc, serve para por numa redoma aquilo que um movimento social e cultural interpôs aos valores vigentes.

Houve uma transformação da sociedade por via da cultura.

Quando se define por decreto que uma determinada cultura tem de ser ser enraizada à força, sem que passe pelo processo natural de cristalização, está se a ir contra o processo orgânico cultural.

Ou seja, quando se definem valores culturais por decreto, como o Futebol, Fado e Fátima de António Ferro, está se a condicionar o desenvolvimento das iniciativas orgânicas, voláteis e de difícil regulação que são necessárias para o florescimento de uma cultura livre, independente e sobretudo relevante, genuína.

Numa altura em que o marketing territorial está a ocupar o lugar da academia na definição de estratégias culturais para o país e para as cidades e aldeias, é preciso lembrar que um químico, sabendo o processo que leva à cristalização, não começa pelo cristal, antes cria as condições, mesmo que laboratoriais, para que este se desenvolva com os ingredientes necessários.

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