A ficção na vida de um designer

Acho que sou um tipo que só adopta novas tecnologias quando já estão estabelecidas. Um late adopter portanto. No entanto gosto dos cenários às vezes ridículos que surgem do uso, por vezes extremado, de equipamentos tecnológicos. A criação de cenário especulativos é até uma das mais potentes ferramentas disponíveis a um designer para estabelecer contextos de inovação férteis. Aplicar algumas premissas “-e se?..” a um determinado briffing torna toda problemática de projecto mais livre. É como se o futuro pudesse ser especulado, como diriam Anthony Dune e Fiona Raby.

Neste campo, umas das vertentes culturais mais profícuas em estabelecer novos cenários, com um objectivo claro, são as séries humorísticas.

Sou, desde que passou a fase do poop, grande fan de South Park. As últimas seasons desta série promovem uma das mais inteligentes e divertidas formas de crítica social. Abrangendo aspectos desde a moral, relacionamentos inter-pessoais e apropriação tecnológica pela sociedade, nenhum assunto relevante e contemporâneo fica impune à mordaz capacidade de análise dos criativos desta série.

Sejam os episódios “You’re not yelping” onde toda a lógica do Yelp é invertida e o sistema que avaliam é subjugado à vontade destes críticos de circunstância ou ao episódio “The magic bush” onde a existência de drones telecomandados provoca o surgimento de uma polícia de controle destes equipamentos tecnológicos, há no humor espaço para a criação de cenário que extrapolam, distorcem e alteram uma possível realidade.

d1g6gge

Sendo ávido leitor e consumidor de literatura distópica e interessado em cenários proto-apocalíticos agrada-me divertir-me com situações que poderão parecer irreais e ridículas, mas que ao mesmo tempo enfatizam “o que pode correr mal”. É aí que o design pode aprender a fazer melhor.

Outra série que explorou estas questões, de uma maneira sobretudo meta- ,  foi a “Community”, que segue as peripécias de um grupo de alunos de um Community College nos EUA. Há um episódio onde é garantida a assistência de presos a aulas através de um dispositivo que é tipo um Segway com um Tablet no topo. Esta inovação tecnológica origina uma série de episódios que culminam tragicamente na morte de um destes equipamentos, questionando se esta representação de uma pessoa, e da sua aumentada liberdade, podem ou não ser considerados como um simulacro. 6x5_main_photo

 

 

 

 

 

 

 

Sendo que os anteriores exemplos já são um bocado para o antigos para quem segue algumas, várias ou demais séries ao mesmo tempo, sugiro que passem os olhos pela Black Mirror, onde são também apresentados alguns cenários “too good” ou “too bad” “to be true”.

O designer às vezes acaba mesmo por fazer isto, ficção. Criar cenários que parecem ficção aqui e agora mas que podem vir a tornar-se realidade num futuro próximo, e também especular em cenários como forma de alimentar criativamente o hoje e agora.

Anúncios

Autor: sellmayer

Paulo Sellmayer is a portuguese/german designer based in Leiria, Portugal. He is the creative director at VICARA and holds his own office.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s