Coisas #13_ Navalha Palaçoulo

Tenho uma navalha da Castro de Palaçoulo, com um punho de castanho, que adoro. Foi me oferecida há uns tempos e estimada desde então. Aparentemente insuspeita enquanto assunto de artigo, tem algo que não é visível à primeira vista. Tem aquele ar de que nunca vai deixar de ser um canivete, é sólida, fiel e lhana. E isto parece pouco, mas não é.

(Lhano: adj. Sincero; que se comporta, age com sinceridade, franqueza. Simples; que expressa simplicidade, despretensão. Gentil; que é amável, afável, gentil.)

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Sendo transmontano de meia costela, o descritivo lhano, é cirúrgico aplicado a esta navalha. Não sendo um bisturi, é de facto uma navalha despretensiosa e simples, que nos oferece com gentileza a sua função. Apessoa-se perfeitamente do tipo das gentes que a fazem. É no fundo uma navalha transmontana, usada no dia a dia para comer, cortar baraços na agricultura e fazer a barba, sem espuma. À transmontano portanto.

thehardlifeEscolhi este objecto porque ilustra uma beleza anónima que advém de um fazer cuidado e de uma noção estéctica depurada, honesta aos materiais e aos processos. É um conceito de utilidade formal que o designer Jasper Morrison explora num livro sobre a colecção do Museu de Etnologia, no Restelo em Lisboa, já que se pratica(ou) muito na manufactura dos objectos tradicionais da vida rural portuguesa.

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Neste processo de construção manual ou auxiliada por ferramentas, a manufactura, que David Pye tão bem ilustra no seu “The nature and art of workmanship” (1968), existe uma qualidade instrínseca do trabalho manual que foge às capacidades do design, do desenho. Ou seja, definindo pelo projecto o desenho cabe ao fabricador definir a qualidade deste. É uma noção que vamos perdendo quando assumimos que tudo o que se faz à máquina, com risco de variação zero, é igual. Um modelo de carro é igual ao mesmo modelo de carro, ao mesmo tempo que uma navalha feita à mão não é igual ao mesmo modelo de navalha. É como a fruta, há maçãs que nos parecem melhores que outras e as qualidades que vemos nas coisas, que apercebemos, contam com a nossa experiência para tomarmos uma decisão, de compra sobretudo mas também de contemplação da sua beleza.

Dito de outra forma, mesmo não parecendo grande coisa, esta lhana navalha é linda. Pelo menos aos meus olhos.

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Autor: sellmayer

Paulo Sellmayer is a portuguese/german designer based in Leiria, Portugal. He is the creative director at VICARA and holds his own office.

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