Cultura do Bacalhau/Sardinha

A cultura portuguesa sofre da dicotomia gastronómica bacalhau/sardinha. Sendo ambos pratos/peixes exemplificativos do que de melhor se pode comer neste território, têm também cada um as suas especificidades que analogamente podem ser usadas para ilustrar alguns aspectos culturais.

Se por um lado o bacalhau vem da Noruega, já a sardinha é endógena, ou seja, vive e cresce nas águas portuguesas, e isto por si já quer dizer muito.

As imensas águas lusitanas, oceânicas e profundas que nos orgulham pelo tamanho desproporcionalmente grande são o habitat da sardinha, e não do salmonete. 

Enraizado nas nossas cozinhas temos também um peixe que gosta é de nadar no frio da Noruega e que habita alegremente as cozinhas mediterrânicas das terras lusitanas. Como peixe na água.

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Há quem goste de bacalhau e quem goste de sardinha, não havendo porém quem na ceia de Natal se preste a uma sardinha nem quem pergunte onde se fritam os pastéis numa festa de aldeia. A cada prato seu peixe. Mas também verdade é que a sardinha por nós pescada vem dali ao lado, sendo o bacalhau voado(?) para a nossa mesa. Há aqui diferenças geográficas e de origem.

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A ideia da sardinha como símbolo das festas de Lisboa e o seu consequente concurso de ilustração tem um autor, o atelier de design gráfico Silva! Designers.

Talvez um pouco pelo arrasto do turismo, que amplifica comercialmente alguns ícones e símbolos nacionais, o trabalho de iconografia cultural tem sido feito e tem de ser percebido como a face mais, imediatamente, visível de uma cultura, nacional. Fico deveras aliviado que o bacalhau (ainda) não tenha passado da categoria de confraria, e que as sardinhas da Bordallo Pinheiro povoem prateleiras de bibelots pelo mundo fora. Se a opção fosse um bacalhau cerâmico tínhamos noruegueses a sentirem-se demasiado em casa.

É que aqui, na imagem genuína que o turismo pede, há uma espécie de reconstrução facial benéfica para o país, porque nos permite enterrar totems e concordar com ídolos, sendo ainda assim genuinamente daqui. Não vamos ser nem a Suíça nem a Sillicon Valley da Europa mas podemos ser o país da calçada, do bom vinho, da cortiça e, claro, da sardinha.

O que isto simboliza é sobretudo a forma de pensar em coisas daqui como identitárias de uma cultura. Indo mais longe, é a forma de pensar daqui. Seja ao nível da representatividade material ou da inovação os processos endógenos para lá chegar são os únicos que parecem intrínsecos. Numa balança do que entra e do que sai nunca se vai conseguir exportar bacalhau seco ou ensinar um norueguês a assar sardinhas.

 

 

 

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Autor: sellmayer

Paulo Sellmayer is a portuguese/german designer based in Leiria, Portugal. He is the creative director at VICARA and holds his own office.

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