Coisas #12_Garrafa de Seis Vinhos

A julgar pelo título do post irei escrever sobre uma pomada da adega cooperativa de Valpaços que junta nem mais nem menos 6 vinhos da região. Uma surrapa portanto.

Enganem-se, assim no âmago este post é sobre um artefacto ícone de uma cultura de produção muito próxima da nossa terra Leiria. Escrevo-vos hoje sobre a mitológica Garrafa de Seis Vinhos.

Vi este artefacto, pela primeira vez, no Museu do Vidro na Marinha Grande. É um exemplar feito aquando da visita de uma figura importante à cidade. Vista como um token de gratidão, este artefacto incorpora algumas das técnicas usadas na produção de peças de vidro artesanais. Das técnicas usadas a frio ou a quente na saída do vidro do forno, este artefacto apresenta um portefólio quase completo de como se pode transformar o vidro. Para além disso, neste artefacto estas técnicas são aplicadas de forma exímia, revelando a destreza de mestre. Nem é por menos, já que esta peça era uma das peças/provas para aptidão a mestre vidreiro.

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Museu Nacional de Arte Antiga

A aprendizagem de vidreiro passa por várias etapas. Podendo trabalhar só ou em grupo, este normalmente começa a ajudar o vidreiro que se senta no seu posto. Daí em diante há vários postos consoante a experiência.

Trabalhando nos diversos postos de produção em frente ao forno da fábrica o caminho aprendia-se fazendo. Na Fábrica Escola Guilherme Stephens haviam vários cursos, ou se quisermos etapas. Mesmo não havendo, de meu conhecimento, grande informação sobre as “aulas” há uma ideia de que haviam certos artefactos que representavam um nível de experiência.

Se para se ser considerado mestre vidreiro era preciso saber fazer uma garrafa de seis vinhos, para se começar por aprendiz um frasco de vidreiro chegava. Podendo ser mais ou menos decorado por fora o frasco do vidreiro punha em prática algumas das técnicas do vidro soprado. Curioso é que “este frasco chato imortalizou-se na vida quotidiana do operário vidreiro“.

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©Tozé Santos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há na vida de fábrica um saber empírico enorme que se materializa nalguns artefactos feitos à mão. Esta matéria transformada contém em si a cultura do fazer que a gerou, transmitida e passada, mesmo que só observada, de geração em geração. Este saber carrega mais do que aparenta e é um valor, técnico, mas também cultural, radicado precisamente onde surgiu.

Numa semana onde se inaugura o Galo, “que tem uma série de LEDs e que canta.” (sic), vale a pena relembra quais os símbolos culturais que queremos e devemos afirmar.

 

 

 

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Autor: sellmayer

Paulo Sellmayer is a portuguese/german designer based in Leiria, Portugal. He is the creative director at VICARA and holds his own office.

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