Coisas #14 _ Miniaturas LIDL

As coisas pequeninas, assim para o quase anãs, despertam em nós sentimentos que apenas consigo relacionar aos raios que os ursinhos carinhosos emitiam. As transformações ocorrentes nas pessoas quando se encontram defronte de uma coisa/pessoa pequenina revelam isto mesmo. Se um rim/éclair não desperta em mim senão a vontade de o trincar, já uma miniatura de rim obriga-me a um “és tão fofinho” antes de o fazer preencher a cova de um dos meus molares, enquanto me rio à Carlos Cruz.

Quando se aliam comportamentos biológicos relativos a coisas pequeninas e o marketing agressivo das grandes superfícies de supermercado temos a campanha LIDL SHOP.

Quando conheci estas miniaturas primeiro pensei que eram a colecção inteira dos items de casa de banho de um hotel. Para além do champô e do sabonete tinhas agora também um mini rolo de papel higiénico para fazer conjunto. Assim podias viajar em low-cost usando uma meia como necéssaire.

Mas aparentemente os hamsters que poderiam usufruir destes produtos, e assim seria um bom negócio para quem investia em 15€ de compras no LIDL e recebia algo para manter o seu roedor, afinal não são o consumidor final destas coisinhas fofinhas. Destas coisinhas pequeninas e fofinhas fazem-se colecções. Que giro. Que mini-giro. Uma mini colecção de coisas que um supermercado oferece.

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Até dizia que seria uma ideia parva e que nunca teria resultado porque as pessoas pensam todas da mesma maneira, igual à minha no fundo. Fui relembrado que este raciocínio já teve fracos frutos num passado próximo. E constatei que as filas no LIDL estão maiores. E que quando se paga na caixa se regateia mais uma miniaturazinha porque se são de graça eu posso pedir mais uma. E que se fazem trocas e vendas no OLX, e que a colecção completa destes mini ícones do consumo dos dias que correm vale 50€.

Se a ideia eram os pequenos, a quem coisinhas pequeninas se dirigem, fazerem brincadeiras com estes itens, a verdade é que há uma horda de adultos à procura destes coleccionáveis. Faz sentido, já que são eles que pagam e que se podem intitular donos destas magníficas colecções. A bem ver, fica mais barato do que coleccionar as moedas dos países do euro ou os Matutazos de uma geração anterior.

De qualquer forma, parabéns à estratégia de reposicionamento da empresa, descrita aqui pela directora de comunicação, já que as filas estão cheias, fala-se muito no LIDL e os mini pratos voltaram a estar na moda. É um bom exemplo de uma estratégia de marketing pensada de raíz para mudar a empresa.

Agora que já agarrei a vossa atenção, se alguém tiver uma banana troco por um frango ou um esparguetinho que tenho a mais.

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Coisas #13_ Navalha Palaçoulo

Tenho uma navalha da Castro de Palaçoulo, com um punho de castanho, que adoro. Foi me oferecida há uns tempos e estimada desde então. Aparentemente insuspeita enquanto assunto de artigo, tem algo que não é visível à primeira vista. Tem aquele ar de que nunca vai deixar de ser um canivete, é sólida, fiel e lhana. E isto parece pouco, mas não é.

(Lhano: adj. Sincero; que se comporta, age com sinceridade, franqueza. Simples; que expressa simplicidade, despretensão. Gentil; que é amável, afável, gentil.)

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Sendo transmontano de meia costela, o descritivo lhano, é cirúrgico aplicado a esta navalha. Não sendo um bisturi, é de facto uma navalha despretensiosa e simples, que nos oferece com gentileza a sua função. Apessoa-se perfeitamente do tipo das gentes que a fazem. É no fundo uma navalha transmontana, usada no dia a dia para comer, cortar baraços na agricultura e fazer a barba, sem espuma. À transmontano portanto.

thehardlifeEscolhi este objecto porque ilustra uma beleza anónima que advém de um fazer cuidado e de uma noção estéctica depurada, honesta aos materiais e aos processos. É um conceito de utilidade formal que o designer Jasper Morrison explora num livro sobre a colecção do Museu de Etnologia, no Restelo em Lisboa, já que se pratica(ou) muito na manufactura dos objectos tradicionais da vida rural portuguesa.

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Neste processo de construção manual ou auxiliada por ferramentas, a manufactura, que David Pye tão bem ilustra no seu “The nature and art of workmanship” (1968), existe uma qualidade instrínseca do trabalho manual que foge às capacidades do design, do desenho. Ou seja, definindo pelo projecto o desenho cabe ao fabricador definir a qualidade deste. É uma noção que vamos perdendo quando assumimos que tudo o que se faz à máquina, com risco de variação zero, é igual. Um modelo de carro é igual ao mesmo modelo de carro, ao mesmo tempo que uma navalha feita à mão não é igual ao mesmo modelo de navalha. É como a fruta, há maçãs que nos parecem melhores que outras e as qualidades que vemos nas coisas, que apercebemos, contam com a nossa experiência para tomarmos uma decisão, de compra sobretudo mas também de contemplação da sua beleza.

Dito de outra forma, mesmo não parecendo grande coisa, esta lhana navalha é linda. Pelo menos aos meus olhos.

Cultura do Bacalhau/Sardinha

A cultura portuguesa sofre da dicotomia gastronómica bacalhau/sardinha. Sendo ambos pratos/peixes exemplificativos do que de melhor se pode comer neste território, têm também cada um as suas especificidades que analogamente podem ser usadas para ilustrar alguns aspectos culturais.

Se por um lado o bacalhau vem da Noruega, já a sardinha é endógena, ou seja, vive e cresce nas águas portuguesas, e isto por si já quer dizer muito.

As imensas águas lusitanas, oceânicas e profundas que nos orgulham pelo tamanho desproporcionalmente grande são o habitat da sardinha, e não do salmonete. 

Enraizado nas nossas cozinhas temos também um peixe que gosta é de nadar no frio da Noruega e que habita alegremente as cozinhas mediterrânicas das terras lusitanas. Como peixe na água.

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Há quem goste de bacalhau e quem goste de sardinha, não havendo porém quem na ceia de Natal se preste a uma sardinha nem quem pergunte onde se fritam os pastéis numa festa de aldeia. A cada prato seu peixe. Mas também verdade é que a sardinha por nós pescada vem dali ao lado, sendo o bacalhau voado(?) para a nossa mesa. Há aqui diferenças geográficas e de origem.

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A ideia da sardinha como símbolo das festas de Lisboa e o seu consequente concurso de ilustração tem um autor, o atelier de design gráfico Silva! Designers.

Talvez um pouco pelo arrasto do turismo, que amplifica comercialmente alguns ícones e símbolos nacionais, o trabalho de iconografia cultural tem sido feito e tem de ser percebido como a face mais, imediatamente, visível de uma cultura, nacional. Fico deveras aliviado que o bacalhau (ainda) não tenha passado da categoria de confraria, e que as sardinhas da Bordallo Pinheiro povoem prateleiras de bibelots pelo mundo fora. Se a opção fosse um bacalhau cerâmico tínhamos noruegueses a sentirem-se demasiado em casa.

É que aqui, na imagem genuína que o turismo pede, há uma espécie de reconstrução facial benéfica para o país, porque nos permite enterrar totems e concordar com ídolos, sendo ainda assim genuinamente daqui. Não vamos ser nem a Suíça nem a Sillicon Valley da Europa mas podemos ser o país da calçada, do bom vinho, da cortiça e, claro, da sardinha.

O que isto simboliza é sobretudo a forma de pensar em coisas daqui como identitárias de uma cultura. Indo mais longe, é a forma de pensar daqui. Seja ao nível da representatividade material ou da inovação os processos endógenos para lá chegar são os únicos que parecem intrínsecos. Numa balança do que entra e do que sai nunca se vai conseguir exportar bacalhau seco ou ensinar um norueguês a assar sardinhas.

 

 

 

Coisas #12_Garrafa de Seis Vinhos

A julgar pelo título do post irei escrever sobre uma pomada da adega cooperativa de Valpaços que junta nem mais nem menos 6 vinhos da região. Uma surrapa portanto.

Enganem-se, assim no âmago este post é sobre um artefacto ícone de uma cultura de produção muito próxima da nossa terra Leiria. Escrevo-vos hoje sobre a mitológica Garrafa de Seis Vinhos.

Vi este artefacto, pela primeira vez, no Museu do Vidro na Marinha Grande. É um exemplar feito aquando da visita de uma figura importante à cidade. Vista como um token de gratidão, este artefacto incorpora algumas das técnicas usadas na produção de peças de vidro artesanais. Das técnicas usadas a frio ou a quente na saída do vidro do forno, este artefacto apresenta um portefólio quase completo de como se pode transformar o vidro. Para além disso, neste artefacto estas técnicas são aplicadas de forma exímia, revelando a destreza de mestre. Nem é por menos, já que esta peça era uma das peças/provas para aptidão a mestre vidreiro.

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Museu Nacional de Arte Antiga

A aprendizagem de vidreiro passa por várias etapas. Podendo trabalhar só ou em grupo, este normalmente começa a ajudar o vidreiro que se senta no seu posto. Daí em diante há vários postos consoante a experiência.

Trabalhando nos diversos postos de produção em frente ao forno da fábrica o caminho aprendia-se fazendo. Na Fábrica Escola Guilherme Stephens haviam vários cursos, ou se quisermos etapas. Mesmo não havendo, de meu conhecimento, grande informação sobre as “aulas” há uma ideia de que haviam certos artefactos que representavam um nível de experiência.

Se para se ser considerado mestre vidreiro era preciso saber fazer uma garrafa de seis vinhos, para se começar por aprendiz um frasco de vidreiro chegava. Podendo ser mais ou menos decorado por fora o frasco do vidreiro punha em prática algumas das técnicas do vidro soprado. Curioso é que “este frasco chato imortalizou-se na vida quotidiana do operário vidreiro“.

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©Tozé Santos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há na vida de fábrica um saber empírico enorme que se materializa nalguns artefactos feitos à mão. Esta matéria transformada contém em si a cultura do fazer que a gerou, transmitida e passada, mesmo que só observada, de geração em geração. Este saber carrega mais do que aparenta e é um valor, técnico, mas também cultural, radicado precisamente onde surgiu.

Numa semana onde se inaugura o Galo, “que tem uma série de LEDs e que canta.” (sic), vale a pena relembra quais os símbolos culturais que queremos e devemos afirmar.