Coisas #11 – Aspirador Tosel

Quando estudava Design Industrial na ESAD.CR, no primeiro projecto a sério que nos pediram desenhei um aspirador com 4 colegas meus. Era suposto ser um projecto tecnicamente difícil que nos entrosasse a trabalhar num modelo que Bolonha veio a chamar de “equipa”. À parte de sermos muitos e dar sempre para alguém encostar foi um projecto que deu gozo em fazer, apesar de, já que estava a ser formado, não via grande uso para saber desenhar aspiradores num mercado como Portugal.

É que à data desconhecia empresas/fábricas/marcas nacionais que produzissem electrodomésticos.  Ainda hoje, se quisesse viver da menção em posts de electrodomésticos nacionais teria de fazer render, de forma quase exclusiva, as vantagens da utilização de um forno Meireles ou de um aquecedor Jocel.

Os tempos orgulhosos da Casal Boss, do UMM ou do Pirolito foram-se. Quando a entrada de Portugal na União Europeia ainda parecia longínqua, havia uma indústria que procurava suprir as necessidades do consumo interno. Com a abertura dos mercados a concorrência externa eliminou algumas das frágeis estruturas industriais existentes.20161006_121600-1 20161006_121543

Neste contexto haviam muitas empresas que, após a entrada na UE, deixaram de poder produzir as mesmas coisas. Um desses casos é o da Tosel. Esta empresa familiar que está sediada num complexo industrial ali ao início do Soutocico produzia ventoinhas, aspiradores, secadores, moinhos de café e aquecedores. Sobretudo aparelhos com componentes eléctricos simples como motor, resistências e/ou controladores eléctricos. Estes produtos possuíam muitas vezes caixas, ou invólucros, de plástico injectado pela Tosel.

Já andava à procura de um destes artefactos há uns tempos, sendo que encontrei no lixo um exemplar funcional. Está feio, partido, danificado, mas ainda trabalha. Tem aquela persistência de um carro de outrora, feito para durar.

Enquanto designer de produto, e numa altura onde a inovação e o investimento em capital intelectual surgem como prementes numa indústria que necessita das exportações, pergunto-me onde ficaram estes casos de produtos de marca própria, feitos por fábricas com condições de trabalho boas e capacidade de inovar.

Podemos fazer ferramentas para outros produzirem produtos de valor acrescentado, continuando a trabalhar na cauda da linha de produção da Europa mas qualquer dia pode ser que a competitividade do preço baixo já não chegue. E aí lamentaremos a nossa falta de inovação.

 

 

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