A prisão e o deserto criativos

Quando trabalhas numa área que depende da criatividade, e não enquanto criativo já que às vezes também posso ser melodramático, perguntam-te, ou melhor, tens de explicar o que é a criatividade e como a caracterizas.

Na minha primeira entrevista de emprego numa grande empresa produtora de garrafas de vidro eram 3 elementos a fazer a entrevista e o membro dos recursos humanos saiu-se com a categórica pergunta “o que é para si a criatividade?”. A minha resposta, foi mais ou menos a seguinte:

Para percebermos o que é a criatividade temos de perceber os seus pólos, os extremos entre os quais se localiza. Mesmo sendo uma definição/explicação simplificada permite rapidamente entender o que se procura explicar.

Usando uma analogia, num dos extremos temos a prisão, onde o nosso único objectivo à partida é arranjar maneira de sair. Seja cumprindo a pena, seja elaborando um plano de fuga, seja a aceitar viver alegremente dentro desses quatro muros, a criatividade aplica-se na resolução de um proposto objectivo. Há um pressuposto exterior, estamos presos, e um pressuposto interior, o que queremos fazer na prisão ou para sair dela. Vejo as condicionantes de um projecto como uma prisão, num bom sentido. Primeiro é preciso conhecer tudo o que a envolve, o espaço, as pessoas e as suas idiossincrasias, já que as prisões são todas diferentes. Depois precisamos de estabelecer uma espécie de um plano, com objectivos concretos, para que possamos cumprir o nosso objectivo. Os passos entre definir o objectivo, sair da prisão, e executar o plano proposto são concretizados com recurso a processos de tomada de decisão criativos, já que requerem imaginação e uma boa dose de previsão de cenários.

No outro extremo temos o deserto. Um lugar plano, sem referências visuais, com sol escaldante e escassa vegetação. Um local do qual queremos sair. Aqui o pressuposto exterior apesar de poder ser definido, no fundo é um deserto, é mais abstracto, visto que não se define pelas condicionantes mas pela ausência delas, ou seja, se na prisão nos retiram a liberdade aqui a liberdade total ofertada pelo deserto pode retirar-nos a vida. Aqui o nosso objectivo é claramente escolher uma estratégia que nos leve a local seguro. Estando no centro do deserto, independentemente da direcção que escolhemos tomámos a decisão certa, já que esta é totalmente subjectiva e tem igual probabilidade de resultar numa garrafa de água fresca. Aqui, no processo de percorrer o caminho escolhido surgem processos de decisão onde a criatividade como forma de resolver e contornar problemas se impõe, mas onde as condicionantes e os impedimentos têm de ser geridos subjectivamente por quem conduz o caminho a percorrer.

Claramente o primeiro caso temos a criatividade aplicada a um problema específico, um pedido de um cliente ou simplesmente uma pequena tarefa que surja no desenrolar de um projecto maior.
No no segundo caso somos nós a criar o problema quando escolhemos um caminho. Se ficarmos parados não criamos condicionalismos e necessitamos de processos criativos de tomadas de decisão. Apenas ficamos parados no meio do deserto à espera dos abutres.

Claramente, esta analogia resultou muito mal já que me respondem, “então vais asfixiar, ficar preso aqui ao trabalho”. E não fiquei com a posição. E ainda bem!

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Autor: sellmayer

Paulo Sellmayer is a portuguese/german designer based in Leiria, Portugal. He is the creative director at VICARA and holds his own office.

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