A paixão e o amor criativos

Tantas vezes somos enganados pela volatilidade e informidade das relações humanas modernas que confundimos paixão e amor, duas das condições sentimentais entre duas ou mais pessoas. Não, isto não é um post de aconselhamento amoroso. É mais uma tentativa de explicar como nutro desta dicotómica relação com os projectos em que me envolvo.

Já me aconteceu ter uma ideia e ficar tão apaixonado que deixei tudo para trás. Deixei a caixa do correio encher, transbordar e ser transformada em lixo electrónico para me dedicar a 200% a essa ideia/projecto. Analogia futebolística à parte, ficava tão obcecado que sonhava, transpirava e só pensava em concretizar essa paixão. No outro dia, na outra semana, no outro mês, num rasgo de lucidez raro nesse período ocorria-me: “Isto nunca vai resultar”. Os esboços ficaram no caderno, as pesquisas no histórico do Chrome, as amostras numa caixa agora poeirenta e na praia da memória o mar foi apagando as marcas que estavam na areia as memórias no canto do cérebro reservado à poesia.

love ideaCom o tempo aprendi que o melhor é mesmo deixar esses ímpetos bem registados no caderno ou numa pasta no PC a ganhar mosto. Uva verde só não faz vinho. Depois, caderno adentro, ou mesmo passado uns anos, lembro-me daquela paixão incontrolável e talvez, raros casos, tivesse sido sempre amor.

É que o amor pede tempo. Nasce da certeza de que há algo que te fascina num projecto, numa coisa ou numa pessoa. Constrói-se a partir de variadas interacções e começa a ser quando o queremos que seja. Não há imediato no amor. Trabalhamos no projecto, esquecemo-nos mas ele volta à tona, flutua e parece que não nos conseguimos safar de um naufrágio certo se não nos agarrarmos a ele. Os projectos de amor são os melhores. Deixam-te eternamente enamorados. Mesmo depois de concretizados vais descobrindo coisas que gostas neles, aprendes a desistir de tentar mudar aquilo que te desagrada e sorris como um parvo quando aquela cadeira se desengonça sempre que alguém se senta.

Vou me continuar a apaixonar por ideias parvas e concretizá-las o mais rapidamente possível porque toda a existência humana depende delas, com a certeza de que aquelas onde existe amor são as que devo apostar e continuar a alimentar. Caso para dizer que, às vezes, é melhor deixar assentar.

A prisão e o deserto criativos

Quando trabalhas numa área que depende da criatividade, e não enquanto criativo já que às vezes também posso ser melodramático, perguntam-te, ou melhor, tens de explicar o que é a criatividade e como a caracterizas.

Na minha primeira entrevista de emprego numa grande empresa produtora de garrafas de vidro eram 3 elementos a fazer a entrevista e o membro dos recursos humanos saiu-se com a categórica pergunta “o que é para si a criatividade?”. A minha resposta, foi mais ou menos a seguinte:

Para percebermos o que é a criatividade temos de perceber os seus pólos, os extremos entre os quais se localiza. Mesmo sendo uma definição/explicação simplificada permite rapidamente entender o que se procura explicar.

Usando uma analogia, num dos extremos temos a prisão, onde o nosso único objectivo à partida é arranjar maneira de sair. Seja cumprindo a pena, seja elaborando um plano de fuga, seja a aceitar viver alegremente dentro desses quatro muros, a criatividade aplica-se na resolução de um proposto objectivo. Há um pressuposto exterior, estamos presos, e um pressuposto interior, o que queremos fazer na prisão ou para sair dela. Vejo as condicionantes de um projecto como uma prisão, num bom sentido. Primeiro é preciso conhecer tudo o que a envolve, o espaço, as pessoas e as suas idiossincrasias, já que as prisões são todas diferentes. Depois precisamos de estabelecer uma espécie de um plano, com objectivos concretos, para que possamos cumprir o nosso objectivo. Os passos entre definir o objectivo, sair da prisão, e executar o plano proposto são concretizados com recurso a processos de tomada de decisão criativos, já que requerem imaginação e uma boa dose de previsão de cenários.

No outro extremo temos o deserto. Um lugar plano, sem referências visuais, com sol escaldante e escassa vegetação. Um local do qual queremos sair. Aqui o pressuposto exterior apesar de poder ser definido, no fundo é um deserto, é mais abstracto, visto que não se define pelas condicionantes mas pela ausência delas, ou seja, se na prisão nos retiram a liberdade aqui a liberdade total ofertada pelo deserto pode retirar-nos a vida. Aqui o nosso objectivo é claramente escolher uma estratégia que nos leve a local seguro. Estando no centro do deserto, independentemente da direcção que escolhemos tomámos a decisão certa, já que esta é totalmente subjectiva e tem igual probabilidade de resultar numa garrafa de água fresca. Aqui, no processo de percorrer o caminho escolhido surgem processos de decisão onde a criatividade como forma de resolver e contornar problemas se impõe, mas onde as condicionantes e os impedimentos têm de ser geridos subjectivamente por quem conduz o caminho a percorrer.

Claramente o primeiro caso temos a criatividade aplicada a um problema específico, um pedido de um cliente ou simplesmente uma pequena tarefa que surja no desenrolar de um projecto maior.
No no segundo caso somos nós a criar o problema quando escolhemos um caminho. Se ficarmos parados não criamos condicionalismos e necessitamos de processos criativos de tomadas de decisão. Apenas ficamos parados no meio do deserto à espera dos abutres.

Claramente, esta analogia resultou muito mal já que me respondem, “então vais asfixiar, ficar preso aqui ao trabalho”. E não fiquei com a posição. E ainda bem!