Splendidor, o cálice do design

Não sou um gajo cagão. O peso pejorativo da palavra apenas demonstra o que descreve, um gajo que caga lérias de auto promoção ou gabanço.

Posto isto, vou falar um bocado sobre uma das peças que desenhei que mais me orgulham. Sim, orgulham. Um tipo pode ter orgulho no que faz sem se ter de se sentir coercivamente obrigado à humildade.

No final do ano de 2011 estava a viver em casa dos meus avós em Algés, tinha acabado o voluntariado a que me propus na Experimenta Design desse ano, onde participei em duas exposições, e andava a colar caixas de sintetizadores para a Club of the Knobs. Portanto, bem perdido a tentar fazer umas cenas e safar-me. Eram os bons tempos do “ah, não estás a pensar em emigrar?, coitado”. Tínhamos acabado de submeter a nossa proposta a um concurso de arquitectura temporária pública para Guimarães Capital Europeia da Cultura, com o Pedro Augusto (aka Projecto Yesterday) e o João Gonçalo Lopes, quando recebo uma chamada da curadora Mariana Pestana a convidar-me a participar numa exposição intitulada Copos de Colecção integrada na exposição Collecting Concepts and Collections, da curadoria do Paulo Mendes. Inception.

Super satisfeito na viagem para Leiria com os restantes comparsas começava a ver alguma luz na escuridão onde me encontrava, afinal ia ter a oportunidade de produzir um protótipo na Vista Alegre Atlantis e ter uma peça numa das iniciativas culturais mais importantes do jovem século neste País. All good até porque prometiam e cito “Existe ainda a possibilidade de entrar em acordo com a VAA para o desenvolvimento de uma linha de mesa ou bar (neste caso serão acordadas royalties).” (Pestana, 2011).

Não pagavam, é claro. Já que era dado o privilégio de participar nisto ora bolas!

Quanto ao processo de desenvolvimento do projecto fui um bocado para o nabo, mas estava em boa forma, atento a mudanças e potenciais variações que surgissem. Propus um desenho/conceito e queria era ir para a fábrica ver como podia fazer. Puseram-me bastantes reservas porque tinha como referência uma técnica de uso de ácido hidroclorídrico presente numa urna oferecida ao meu avô. Penso que o Mestre Albano era um dos excelsos praticantes desta perigosa manualidade, que podem ser vistos no Museu do Vidro da Marinha Grande. 

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Gravura a ácido em urna de vidro doublé.

Portanto como não me deixaram corroer alguns copos, dadas as dificuldades de produção, decidi, conjuntamente com os técnicos da oficina de lapidação, lapidar os bicos ao copo de bicos. A história fechou-se, fez-se luz e para mim fazia todo o sentido.

Antigamente, sobretudo na baviera, os copos eram de vidro grosso, porque o fundente usado na composição do vidro não permitia grande tempo de manuseamento. Para tornar mais leves e decorar estes copos, presumo, eram feito cortes, lapidações em padrões vários. Seguindo o avanço das tecnologias de produção posteriormente, para cortar custos, estes copos passaram a ser feitos com moldes de 3 peças em processo de prensagem de vidro. Batota. Eu quis foi voltar a dar a mão à peça, eliminando aquilo que para mim estava a mais. Só isto.

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Engraçado que não recebi um único centavo com o projecto e gastei 30 euros a comprar o catálogo que supostamente mo iam enviar (btw nice design). A exposição foi fixe, mas sinceramente saí daquela experiência a pensar que nunca na vida ia poder ganhar a vida a fazer aquilo.

Passados uns anos de usar o copo para beber água ou vinho nos ateliers onde estivesse, perguntaram-me se o queria expor e eventualmente ceder ao MUDE para uma exposição sobre design português. (eu) – na boa pá! Quando entreguei o copo, ainda com restos laranjas das aguarelas para que tinha servido anteriormente, disse ingenuamente à técnica de conservação do MUDE que “isso lava-se tranquilamente com um esfregão”. Qual é o meu espanto quando o vejo exposto no MUDE, com uma cúpula de acrílico gigante como se fosse o último dos últimos cálices sagrados, mas ainda sujo. Ri-me. Mas depois pensei que talvez não pudessem mesmo lavá-lo, sei lá, se calhar pensaram que fazia parte ou assim..

Hoje recordo esse projecto como uma bela lição. O panorama cultural na altura era difícil, muita gente a emigrar poucas oportunidades e certezas e uma espécie de acotovelar pelo primeiro lugar na fila para senhas de refeição. É uma comparação injusta mas hiperbólica. Acho que hoje em dia, também fruto da minha experiência, há mais oportunidades criadas e que se podem criar. O positivismo do turismo veio , a meu ver, trazer ao país a noção com que os turistas vêm. De que Portugal é um país do caraças.

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Autor: sellmayer

Paulo Sellmayer is a portuguese/german designer based in Leiria, Portugal. He is the creative director at VICARA and holds his own office.

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