Sem Design_Grelhadores

Em mês de Santos Populares em Lisboa deve andar tudo ou de ressaca efectiva ou simplesmente cansados de tanta fumarada e musicalhada que andou a perfumar a cidade nas últimas semanas.

É normal, visto que o cultivo do gosto de sardinhas e de febras se permeia ao beberico de água do barril e de um pé de dança pimba. Gosto de tudo o que circunda estas festas, que penso serem no fundo um dos últimos redutos de uma cultura popular portuguesa não provinciana. Música pimba na capital é raro, digo eu.

Posto isto o que gosto mesmo e me leva aqui a escrever é o design, sobretudo de produto. Falo aqui do desenrascanço, tipicamente tuga, que pode ser observado em todo o lado mas que se assume evidente numa manifestação cultural deste género.

À luz do design de sobrevivência que tem inundado a internet e nos tem relembrado que as invenções mais significativas são as que mudam os modos de vida em situações limite queria estabelecer um paralelismo entre alguns exemplos de DIY que têm sido divulgados. O primeiro, que a internet potenciou, é a quantidade de inovações/startups reveladoras que têm surgido em Nairobi, Quénia. Desde a aplicação para diagnosticar cataratas que a Alice Rawsthorn referiu numa Ted Talk a outras aplicações que surgem do contexto de inovação social presente numa sociedade surpreendentemente tecnológica esta cidade africana tem feito juz à expressão “a necessidade aguça o engenho”.

No outro lado do Atlântico, em Cuba, assiste-se a uma Desobediência Tecnológica , que é uma manifestação da vida de sobrevivência e resistência que os habitantes da ilha levavam. No documentário são registados algumas das inovações a que os habitantes da ilha foram obrigados a desenvolver. Há também um simpático registo de grelhadores e fornos que aconselho a ver. É uma bibliografia adicional interessante para o que aí vem.

Chegando ao exemplo que nos é mais próximo, em Portugal a criatividade aplicada à inovação do dia a dia surge num outro contexto, usando meios semelhantes para um fim sobretudo lúdico.

Sobretudo numa época festiva, como é o nosso Verão de Maio a Outubro, uma das actividades mais proeminentes da cultura portuguesa, o churrasco, constituí previsivelmente o palco maior para a demonstração de uma das maiores qualidades daqui do condado, o desenrascanço. A construção de grelhadores implica este engenho ao serviço do hedonismo de uma forma que cada engenheiro calorífico aplica o seu cunho pessoal neste objecto aparentemente anónimo. Ou seja, objectos sem design, feitos para funcionarem, feitos com o que há. Opondo-se aos objectos com design, que eu ainda estou para perceber o que são.

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A propósito disto resolvi fotografar os grelhadores de sardinhas e febras que ladeavam pontos fugazes de bailarico espalhados pela cidade de Lisboa. Aparentemente são todos iguais, bidons cortados ao meio com pés. Mas na resolução de um problema básico de design, a união das pernas e consequente ligação com o barril, encontramos a diversidade da criatividade humana aplicada a uma actividade tão prazerosa quanto nutritiva. Consigo até imaginar um certo orgulho na feitura de tal máquina de assar sardinhas, e não é difícil perceber porquê já que se trata, em termos sociais, do centro da festa. Há que ter o melhor grelhador do bairro!

Chapéus há muitos, grelhadores também, e as sardinhas só são boas mais lá para o final do Verão, mas quem fome tem, sem garfo come. Inventa, arranja maneira de o fazer, sempre em prole de uma causa unificadora e maior. Boas sardinhas!

 

 

 

Splendidor, o cálice do design

Não sou um gajo cagão. O peso pejorativo da palavra apenas demonstra o que descreve, um gajo que caga lérias de auto promoção ou gabanço.

Posto isto, vou falar um bocado sobre uma das peças que desenhei que mais me orgulham. Sim, orgulham. Um tipo pode ter orgulho no que faz sem se ter de se sentir coercivamente obrigado à humildade.

No final do ano de 2011 estava a viver em casa dos meus avós em Algés, tinha acabado o voluntariado a que me propus na Experimenta Design desse ano, onde participei em duas exposições, e andava a colar caixas de sintetizadores para a Club of the Knobs. Portanto, bem perdido a tentar fazer umas cenas e safar-me. Eram os bons tempos do “ah, não estás a pensar em emigrar?, coitado”. Tínhamos acabado de submeter a nossa proposta a um concurso de arquitectura temporária pública para Guimarães Capital Europeia da Cultura, com o Pedro Augusto (aka Projecto Yesterday) e o João Gonçalo Lopes, quando recebo uma chamada da curadora Mariana Pestana a convidar-me a participar numa exposição intitulada Copos de Colecção integrada na exposição Collecting Concepts and Collections, da curadoria do Paulo Mendes. Inception.

Super satisfeito na viagem para Leiria com os restantes comparsas começava a ver alguma luz na escuridão onde me encontrava, afinal ia ter a oportunidade de produzir um protótipo na Vista Alegre Atlantis e ter uma peça numa das iniciativas culturais mais importantes do jovem século neste País. All good até porque prometiam e cito “Existe ainda a possibilidade de entrar em acordo com a VAA para o desenvolvimento de uma linha de mesa ou bar (neste caso serão acordadas royalties).” (Pestana, 2011).

Não pagavam, é claro. Já que era dado o privilégio de participar nisto ora bolas!

Quanto ao processo de desenvolvimento do projecto fui um bocado para o nabo, mas estava em boa forma, atento a mudanças e potenciais variações que surgissem. Propus um desenho/conceito e queria era ir para a fábrica ver como podia fazer. Puseram-me bastantes reservas porque tinha como referência uma técnica de uso de ácido hidroclorídrico presente numa urna oferecida ao meu avô. Penso que o Mestre Albano era um dos excelsos praticantes desta perigosa manualidade, que podem ser vistos no Museu do Vidro da Marinha Grande. 

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Gravura a ácido em urna de vidro doublé.

Portanto como não me deixaram corroer alguns copos, dadas as dificuldades de produção, decidi, conjuntamente com os técnicos da oficina de lapidação, lapidar os bicos ao copo de bicos. A história fechou-se, fez-se luz e para mim fazia todo o sentido.

Antigamente, sobretudo na baviera, os copos eram de vidro grosso, porque o fundente usado na composição do vidro não permitia grande tempo de manuseamento. Para tornar mais leves e decorar estes copos, presumo, eram feito cortes, lapidações em padrões vários. Seguindo o avanço das tecnologias de produção posteriormente, para cortar custos, estes copos passaram a ser feitos com moldes de 3 peças em processo de prensagem de vidro. Batota. Eu quis foi voltar a dar a mão à peça, eliminando aquilo que para mim estava a mais. Só isto.

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Engraçado que não recebi um único centavo com o projecto e gastei 30 euros a comprar o catálogo que supostamente mo iam enviar (btw nice design). A exposição foi fixe, mas sinceramente saí daquela experiência a pensar que nunca na vida ia poder ganhar a vida a fazer aquilo.

Passados uns anos de usar o copo para beber água ou vinho nos ateliers onde estivesse, perguntaram-me se o queria expor e eventualmente ceder ao MUDE para uma exposição sobre design português. (eu) – na boa pá! Quando entreguei o copo, ainda com restos laranjas das aguarelas para que tinha servido anteriormente, disse ingenuamente à técnica de conservação do MUDE que “isso lava-se tranquilamente com um esfregão”. Qual é o meu espanto quando o vejo exposto no MUDE, com uma cúpula de acrílico gigante como se fosse o último dos últimos cálices sagrados, mas ainda sujo. Ri-me. Mas depois pensei que talvez não pudessem mesmo lavá-lo, sei lá, se calhar pensaram que fazia parte ou assim..

Hoje recordo esse projecto como uma bela lição. O panorama cultural na altura era difícil, muita gente a emigrar poucas oportunidades e certezas e uma espécie de acotovelar pelo primeiro lugar na fila para senhas de refeição. É uma comparação injusta mas hiperbólica. Acho que hoje em dia, também fruto da minha experiência, há mais oportunidades criadas e que se podem criar. O positivismo do turismo veio , a meu ver, trazer ao país a noção com que os turistas vêm. De que Portugal é um país do caraças.

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Na última semana do mês de Maio ocorreu a edição zero da Caldas Design Week.

Aliás neste mês, que agora passou, a cidade de Caldas da Rainha teve um intenso programa cultural, popular e de festas. Desde o bi-decano Caldas Late Night, passando pela Festa do Cavalo e terminando nas comemorações do Dia da Cidade.

Pelo meio houve também um ReSeclar, que promove a reutilização dos espaços da antiga Secla 2. Um grande complexo industrial cerâmico perto da ESAD.CR que albergou durante este mês festas, concertos, iniciativas de pintura de rua e que tinha um dos pavilhões reservado à Caldas Design Week, nomeadamente para a exposição colectiva Multitude – do ideal ao possível.

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Módulo Expositivo de Vidro com a coordenação de Samuel Reis (© Luís Guedes)

Neste espaço tiveram lugar 4 módulos expositivos dedicados a Cerâmica, Vidro, New Media e Objectos Anónimos. Cerâmica com ligação à cidade ou à ESAD.CR coordenado pelo Vítor Agostinho, vidro fruto de uma série de workshops no CENCAL no início deste ano coordenado pelo Samuel Reis, New Media com a curadoria do Arquivo 237 e uma exposição de Cruzetas/Cabides onde pedi a vários designers para desenharem O seu cabide/cruzeta. O design expositivo foi da responsabilidade de Jorge Carreira e Eneida Tavares. Houve também uma instalação de Inês Milagres. Com mais de 50 participantes, um dos objectivos de incluir a comunidade criativa foi alcançado. Tivemos também exposições de alunos na ESAD.CR e pelo meio um roteiro aos ateliers de criadores das Caldas da Rainha. Chegarmos perto dos 500 visitantes num evento tão específico realizado em pouquíssimo tempo é para nós um orgulho. Mas é pouco para o potencial de público que um evento deste género pode alcançar.

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Módulo Expositivo de Cerâmica com a coordenação de Vítor Agostinho (© Luís Guedes)

Falo de tudo isto não como visitante mas porque nasceu da nossa vontade, minha e de outros, de construir este evento, compacto, que pudesse servir aos agentes ligados ao design em geral, às indústrias criativas e à manufactura regional e nacional. Relativamente central face aos grandes pólos populacionais, Caldas da Rainha usufrui da condição de ter 2/3 milhares de criadores, das variadas áreas, a viver, estudar e produzir na cidade. É uma boa % para uma cidade com 50.000 habitantes!

Por isso sempre achámos que faz sentido haver uma Caldas Design Week.

Uma semana dedicada a mostrar o que de melhor se faz no design local e, se houver interesse, no País. Uma semana aberta a quem queira participar e mostrar e divulgar o seu trabalho e solícita de ideias, contributos, para criar uma comunidade forte e colaborativa.

Convenhamos que aquela Caldas também não é o epicentro da cultura nacional, mas tem potencial. Potencial para se poder criar pelo estímulo criativo, pela liberdade e sobretudo pelo desenvolvimento de uma cultura. Potencial para ligar criadores e indústria, por uma dinâmica de envolvimento. Potencial para que este evento passe de uma edição 0 para uma edição 1.