Coisas #10_Objectos anónimos

Pois é, fez em Março 5 anos que comecei este blog. Neste período ainda assim tive um interregno de 3 anos, o que explica que uma das rubricas fundadoras chegue apenas agora ao #10.

Com esta rubrica “Coisas #_” sempre pretendi falar sobre coisas, obv. Objectos, coisas que possas tocar ou não, mas que tenham, e tem sido essa premissa, algo que possa ser dito da sua relação com a cultura material.

É disto que se trata. Cultura material.

Penso que é normal ter objectos em casa que não notamos. Podemos usá-los todos os dias, mas nunca irão ser os nossos objectos preferidos. Muitos têm o seu quê de anónimo, sem serem arquétipos, o que os esconde numa multidão.

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“Working on furniture” de Bruno Carvalho, na exposição Process no Arquivo 237.

Há alguns projectos que exploram atentamente este fenómeno. Desta normalidade anónima surgem inquietações no processo criativo. Lembro bem de conhecer um projecto do Bruno Carvalho que explorava isto mesmo. Apresentando-se numa das primeiras exposições do Arquivo237, sob o tema de Process, o banco exposto contava esta descontextualização, partindo da obra até a um espaço expositivo. Esta transferência foi tornada evidente através da pintura do banco\escada.

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Foto por Bruno Carvalho

A origem deste projecto do Bruno Carvalho, Working on Furniture, vem especificamente do mobiliário de obra. Do aparente descuido com que são produzidos torna-se evidente o apreço que os seus fazedores por eles têm. Feitos quase do nada, restos de cofragens e vedações, estes são simplesmente pregados. Usados, maltratados, arranjados estes são feitos por pessoas que não têm formação em mobiliário mas que são fazedores natos.

É impossível não traçar um paralelo com um projecto tão importante como polémico, dada a sua estratégia de venda, intitulado Autoprogettazione, de Enzo Mari.

Autoprogettazione, Enzo Mari, 1974.
Autoprogettazione, Enzo Mari, 1974.

Com uma lógica muito DIY, Enzo Mari propõe um plano para fazer uma cadeira, primeiramente. Como instruções de montar Lego, são precisas x tábuas e x pregos, com as suas características. O utilizador depois prega-o. Fá-lo. Qualquer um o pode fazer, comprando-o ou não. É a ideia de cadeira acessível que persiste.

Tenho andado a postar no Instagram alguns exemplos de objectos anónimos que vou encontrando por aí, colocados sob a efígie #nodesign. Tenho vindo a observar que há muitas coisas feitas. Sim, feitas, não pensadas. Sobretudo bancos, cadeiras ou ferramentas encontradas na rua. São coisas que podia ter sido eu ou tu a fazer. Coisas simples e ainda assim expressivas que mantêm o elemento funcional estritamente no mínimo. Coisas que não dão trabalho a fazer, aparentemente. Directas, mas que resistem ao passar do tempo.

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Cadeira/Banco c/ costas, Sertã.
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Maço, Leiria.

 

 

 

 

 

 

 

Isto leva-me a pensar quanto tempo às vezes demora pôr um produto numa prateleira, já que nestes exemplos se vive do imediato. Fazem se duas ou três operações de transformação da matéria e obtém-se um objecto funcional. Um produto.

Quanto trabalho não dá desenhar algo para uma produção industrial? Porque não nos limitamos a apenas fazer coisas? Desenhá-las tudo bem mas deixar para o fazer a maior parte das decisões de projecto que têm de ser tomadas. Partir para a execução com premissas base, como material e ferramentas disponíveis, e deixar a serendipidade e o sentido de ocasião nos levar.

Tenho andado a praticar mais e mais este modo de fazer, e começo a acreditar que é preciso, inesperadamente, prática. Prática para de uma forma situacionista trocar o espectáculo pela verdade. Procurar a verdade das coisas feitas, ao invés de a vender através de coisas fabricadas. De uma forma figurativa e literal esta fabricação do mundo material sucumbe à necessidade humana de provisão e planeamento/execução.

O projecto do imediato é somente a constatação de que pensar demasiado promove a ataraxia do complexo.

 

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lugar/distância

O espaço passou a ser medido em tempo. Longe já não são 10 km, são 5 minutos adequados ao meio de transporte. O espaço já não é medido, enquanto que essa dimensão adquire um significado diferente. O relacional entre espaço e distância mudou, onde a medida da distância é somente o tempo. Para nós tudo hoje é tempo.

Esta noção aplica-se e transforma de um modo lívido aspectos sociais e individuais. O tempo é muito mais individual. Cada qual o concebe da sua maneira, enquanto que o espaço métrico mensurável tem isso a seu favor, é convencionado para que cada qual o possa ler da mesma maneira.

O crescente Eu que nos defronta nasce nesta mudança de métrica nas nossas vidas, porque passamos a confrontar decisões numa métrica pessoal, o tempo, ao invés de um modo relacional, o metro.  Aqui e ali são sempre auto referenciais, enquanto que o mede x ou y se torna inerte, é apenas uma medida.

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Ao mesmo tempo estamos na rede, numa rede. Somos aranhas, mas também somos ursos. A hibernar e a sermos reclusos e hermitas de um mundo que criámos.

Estes conceitos foram me ensinados primeiramente enquanto estudante de Design Industrial na ESAD.CR pelo Prof. José Bonifácio Serra na sua cadeira Cidades Criativas. O Prof. citava muito o Manuel Castells e inclusive deu-nos alguns textos para lermos, para a frequência.

Vivemos em rede, onde as distâncias entre os nós de ligação não são mais do que horas que nos separam.

Nómada Moderno

O número de pessoas que culpa o enxoval pela falta de dinâmica/animosidade do ambiente doméstico diminuiu. Isto inclui móveis e apetrechos de cozinha oferecidos no casamento e aqueles naperons que todos adoramos. Talvez antes se fizesse uma casa para sempre, paga ou construída aos poucos, e havia a certeza de que aqueles tarecos seriam necessários ali, e ali iam ficar.

Houve uma significativa mudança neste aspecto. Grande parte das gerações activas de hoje em dia viveu em muitas casas, e fez muitas mudanças. Mudou de cidade, de país, esteve temporariamente e permanentemente, de passagem ou simplesmente de visita. Daí que o número de casas, habitações, quartos, residências, apartamento e já agora hotéis e hostéis em que vivemos e estivemos, e falo por mim, tivesse aumentado muito. É a tal experiência de vida. Acho que isto é o desejo de um indivíduo moderno. Estou me a referir ao sub referenciado nómada moderno, o tal que flutua livre num líquido informe.

Já sentiram a mala do carro a encolher entre cada mudança? Ou os caixotes serem diferentes a cada vez, aumentando em número? Ou deitarem catálogos e revistas ao lixo no aeroporto porque a bagagem tinha 5kg em excesso? As mudanças são boas para medir a nossa bagagem.

Acho que faz sentido pensar no recheio do nosso habitat doméstico como uma bagagem. Podemos ficar no mesmo sítio, mas o conteúdo da nossa mala muda. Estamos neste registo imensurável, num fluxo de acções e comportamento fluídos, em que as coisas que nos acompanham deixam de carregar, literalmente, o peso de antes.  Somos leves e flexíveis assentando apenas quando for para considerar a mobilidade como a maior forma de liberdade possível.

Somos os novos nómadas variando em frequência de mudança, permanência e duração cada estágio da nossa vida. Sendo a base deste culto moderno a mobilidade, cada qual define ou deixa aberto o seu caminho.

Porque no fundo queremos todos ser andorinhas e só conhecer o Verão e a Primavera.

Alice Rawsthorn_TED talk

Para quem não conhece a Alice Rawsthorn é uma crítica de design que gosto particularmente já que explora esta noção histórica de processos ancestrais que poderiam hoje ser considerados processos de design.

Podem ver melhor o trabalho dela aqui e deixo também uma comunicação que fez nos TED talks. 

Rebel_IOT_RENEGADES

Airbnb e o design de interiores

É impressão minha ou além de liberalizar o mercado do arrendamento, estendo-o a uma utilização privada, o AirBnB despoletou todo um potencial de design interiorismo nas pessoas que usufruem desse serviço?

Num mercado liberal luta-se pela distinção, onde o sucesso de cada um depende do esforço a que proporciona, assim se professa. Seguindo esta leitura, onde estão os concursos de casas mais bonitas no AirBnB? Quero ver a suite modernista ou a casa da aldeia com lareira como noutro espaço turístico. Os Hotéis prestam-se por vezes a proporcionar acomodações distintas. Já na casa da aldeia com lareira, procura-se o tradicional. No fundo, quando se aluga um quarto/casa no AirBnB,  quer se viver como um português numa casa portuguesa. Sem clichés.

Agora, esta casa tipo se podia enquadrar num amálgama do necessário, barato e um extra para dar cor ao imóvel. Bem portuguesa portanto. Pelas poucas casas arrendadas neste regime que conheço, há aí uma estética muito própria a desenvolver-se. Móveis e candeeiros bem como toda a linha de sanitários e instalações técnicas terão de ser abundantemente povoados pelo IKEA. Aos móveis encontrados, dados, ou que escaparam a uma ida sôfrega no camião dos Monos é dada a oportunidade de salpicar, e penso que seja este o termo, o espaço para lhe dar mais carácter de uso. A restante decoração é deixada ao critério de prendas indesejadas ou inúteis, incluindo oferta de sogras, ou outro tipo de bibelots pouco intrusivos já que se pretende criar uma harmonia entre o “não me importo que se parta” e o “isto não é assim tão feio pois não?”.

Se no caso do CouchSurf era o sofá e a cama livre, no AirBnB esta noção muda porque estamos a pagar por um serviço ao invés de usufruirmos de uma troca, o meu sofá pelo teu sofá. Dado ser um serviço minimamente concorrencial, apesar de poderes apenas rentabilizar um quarto vago não necessitando daí grande rendimento, existe a necessidade de afirmação pela distinção. Se o quarto ou o apartamento for igual ao quarto tipo IKEA o preço deve ser barato, já que haverão mais com investimento semelhante.

O que observo é que cada um faz como faz porque o AirBnB nos deu o poder de sermos também rendeiros imobiliários. Este empowerment torna qualquer vão de escadas em património potencial, sem que haja um devido acompanhamento de quem desenvolve projectos de decoração. Acho que, sinceramente, o AirBnB criou a maior Escola Superior de Decoração existente. Assente numa pedagogia sobretudo prática tem vindo a formar muitas pessoas em algo que toda a vida fizeram, decorar espaços e comprar tamancos.

Se quisermos hoje todos podemos ser rendeiros imobiliários, a arrendar casas para por no AirBnB a alugar. Há uma classe que o faz desmesuradamente. A consequência é que há um igual número de decoradores de interiores que mobila no Ikea, salpica com restos e decora com o vier. Mesmo que hajam casas mais cuidadas que outras, podia haver aqui uma excelente oportunidade para investir em design português. Just saying.