Rituais de iniciação à vida adulta_IKEA

Se uma performance se anuncia por via de um guião, emprestando o seu conjunto de acções ao texto que a comanda, como numa peça de teatro, o IKEA, através dos seus guias de como montar móveis, fornece-nos as directrizes de como agir e montar o teu habitat doméstico. Vivendo numa cena de uma peça na qual ensaiamos, actuamos e agimos, mas ainda assim seguindo um guião.

Morvik Roupeiro, IKEA.
Morvik Roupeiro, IKEA.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Casa nova, ida ao IKEA. Época nova, ida ao IKEA. Mudanças, ida ao IKEA. Nem é preciso a publicidade para nos lembrarmos disto. Nesta época já nem nos lembramos que há mesas para além daquelas coloridas de 5 euros. Porém, a facilidade com que encaramos a compra de produtos nas lojas IKEA é contraposta com a dificuldade, envolvendo tempo, perícia física e disponibilidade mental, de os montar.

Há uns tempos, montei um guarda-fatos Morvik para uma casa de um amigo. Demorou a duas pessoas uma tarde a montar, e acreditem que sou competente a montar móveis. E tínhamos uma aparafusadora eléctrica.

Passada a experiência, que envolveu secretárias e estantes Billy com fartura, comecei a pensar que é uma espécie de ritual de iniciação à vida adulta. Mais do que montar um móvel, ficar com as costas partidas, suado, a chamar nomes em sueco a todos as ferragens cujas formas nunca vi, é a dor da superação para uma fase importante da vida.

Também deve dar hérnias discais metamorfosear de crisálida para borboleta.

ikea-man

 

 

 

 

 

 

A vida é uma performance, daquelas cliché, onde actuamos conforme a nossa personagem e nos comportamos consoante a nossa vontade, com os graus de liberdade a que nos propomos e que nos são impostos. Mudar de casa, mobilá-la, decorá-la, iniciar uma nova vida num novo espaço exige contudo um guião que normalmente envolve um bonequinho simpático pouco falante e nórdico. Que nos parte as costas ao meio. Gostava de poder voltar a seguir e não seguir as instruções de montagens dos Legos. Saudades de ser miúdo 🙂

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Ordenados em ordens desordenadas

Precisamos de uma ordem de designers. Não há necessidade nenhuma de termos uma ordem de designers, de design ou de outra designação, de ordem nenhuma. Há pouca ordem na profissão que promova alguma coisa de bom. Acho a disciplina/prática demasiado colada ao institucional para precisar de uma instituição que a represente. Muitas escolas, instituições públicas, eventos do estado, entidades privadas com carácter público que incitam, promovem, são os clientes e no fundo fazem o design acontecer.

Se o design, e agora falo da vertente produto mas penso que a malta de comunicação e gráfico me consegue continuar a ouvir, não permeia o resto das instituições, sobretudo privadas, falo de empresas, fábricas, lojas, restauração, hotéis, turismo, então porque é que precisamos de alguém que represente aqueles que já estão ligados às entidades e instituições de carácter público?

Se houvessem mais profissionais a trabalhar, numa vertente para a qual estudar, se houvesse a abertura de empresas, do tecido empresarial PME, representativo da economia portuguesa, para a inclusão de processos de design de produto, gestão integrada de design, ou simplesmente marketing farsola com design a rodos colado com cuspo, talvez houvesse a necessidade de haver uma ordem, ordenada.

Neste momento, e daí ninguém conseguir falar de alguma identidade portuguesa no design de produto, o que há é feito por alguns carolas que vão trabalhando em prole de si e da comunidade às vezes. Isto não justifica uma ordem. Haver um sindicato quando não há trabalhadores só empobrece o tecido laboral de uma mesma profissão.

Talvez fosse mesmo melhor começarmos a fazer mais coisas acontecer. Com privados que a cultura se vêm do estado é menosprezada como tudo o que não seja aumento é. E aí talvez tenhamos massa, massa crítica e humana para uns poderem representar outros e podermos ter melhores condições de trabalho.

 

Coisas #9 – Cruzeta

Cabide ou Cruzeta? Definitivamente o uso de uma ou outra palavra pode comunicar a tua resistência gástrica à ingestão prolongada de francesinhas. Do Norte. Não da França.

Se bem que não tão radical como aloquete, a palavra cruzeta é um forte indicativo da tua região de origem, cultura falada a que estás e foste sujeito. Embora seja difícil atribuir um regionalismo ao termo/objecto, ligando-o à região Norte do país onde é mais comum ser empregue, a raíz etimológica das palavras cabide e cruzeta apontam para essa diferença. Cabide tem origem árabe, qabda, “garra, gancho”, e cruzeta do latim, crux quer dizer cruz. Mouros, chamam nos eles.  Grosso modo, se dizes que as cruzetas estão seguras porque as prendeste com um aloquete está tudo bem, és do Norte.cruzeta

 

Regionalismos e linguística à parte, este é um objecto fascinante. Um daqueles objectos sintéticos, cuja simplicidade e ainda assim variedade nos permite discorrer sem nunca ficar pendurado.

A cruzeta vem da simples agregação de dois pedaços de madeira que com um gancho no topo serve para pendurar a roupa em armários. A sua trave vertical alongada serve para pendurar o vestido/casaco em lugares mais altos. Simplifica a sua utilização. Simplificado é também o desenho e método construtivo que da sobreposição de dois pedaços de madeira se obtém um objecto útil e prático. Cada Cruzeta apresenta um carácter anónimo mas suficientemente distinto para ter alguma individualidade. A essência do objecto, “its quiddity“, está na interpretação do modelo construtivo.

A cruzeta pede o nome emprestado à forma que lhe dá origem. O cabide é um móvel ou uma peça para pendurar roupa. Dado que a função do último é mais frequente este substituiu em nome a cruzeta, já que esta aponta apenas para o modelo construtivo.

Cada objecto, sobretudo naqueles em que se nota serem feitos à mão, reflecte a visão única do seu criador, por mais anónimo ou estritamente funcional que ele seja. Se atentarem irão de certo encontrar objectos com estas características, a começar nos cabides de madeira dos nossos avós.

Cada qual pensa em como constrói o mundo material que lhe é pedido desenhar.