Gentrificação

Estou na Alemanha, mais propriamente em Oberhausen, minha cidade Natal, onde existe um antigo gasómetro transformado em espaço para exposições de arte. Foi usado pelos Christo numa das suas últimas instalações. Tive sorte e estava cá quando foi. Impressionante.

Este espaço é tido e foi pensado para ser uma memória viva da antiga zona industrial aí existente, um pouco como as chaminés de alvenaria de tijolo de burro que populam a paisagem portuguesa, quais esqueletos de um corpo decomposto, e nos lembram de que ali havia um forno de uma fábrica. Ali nos lembram de que houve outra coisa para além de prédios.

Esta região, Renânia do Norte-Vestfália, foi um grande polo na primeira revolução industrial. Como tinha minas de carvão haviam muita metalúrgicas, que obrigaram à construção de canais para poder fazer o transporte por barco directamente das fábricas até ao rio Reno até ao porto de Roterdão.

A transformação do tecido industrial fez-se, e esta zona é hoje em dia uma das mais populosas da europa. Algumas das indústrias pesadas, metalúrgicas, situam-se nesta região, como a Thyssenkrupp. Pouco interessa, mas aqui produz-se muito, há muita indústria, muitos operários e ainda assim existem por aqui cidades como Wuppertal, onde Pina Bausch desenvolveu o seu trabalho, Düsseldorf, que viu Joseph Beyus  e Anselm Kiefer formarem-se na sua universidade e desenvolverem o seu trabalho por lá, e um festival de curtas metragens em Oberhausen, onde o Fassbinder por exemplo de alguns dos seus primeiros passos.

Num raio de 30 km. Mas também vivem 5,5 milhões de pessoas por estas redondezas. Sai-se de uma cidade e entra-se noutra, sem haver uma estrada para a Marinha Grande a separar. Os prédios são escuros e cinzentos, obedecendo a uma grelha que nunca viu uma sardinha, mas quentes por dentro, e aproveitando toda a luz que possa vir desse céu cinza.

Acho que a cultura evangélica, protestante, contraposta à ostentação da cristã, formou a sociedade para um aproveitamento, um não-desperdício do que é válido, capaz de operar transformações curando as feridas das percas. Aproveita-se o que há.

Esta semana já volto, daqui a pouco na verdade, e sempre que aqui venho volto atento. Atento ao que pode ser aproveitado, que espaços devolutos, que indústrias podem ser desenvolvidas ou não sendo modernizadas que aproveitem a sua manualidade para processos de produção flexíveis em produtos de valor acrescentado, ao que se pode fazer com o que há, no espaço onde vivo.

Sou um optimista, prefiro ver virtudes em defeitos, mau feitio como carácter forte\directo por exemplo ou espaço devoluto como potencial. Há por aí algum barracão\escola à procura de ocupantes? Mesmo que os prédios não falem duvido que possam continuar imóveis.

 

 

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Autor: sellmayer

Paulo Sellmayer is a portuguese/german designer based in Leiria, Portugal. He is the creative director at VICARA and holds his own office.

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