Normose _ queremos ser aceites

Sem que às vezes tenhamos de fazer um esforço maior, procuramos, sobretudo em pesquisas que envolvam perceber o que nos rodeia, algo que nos faça ser aceite. Sermos incluídos num sistema de objectos/produtos que vão saindo, normalmente, nos meios de comunicação que procuramos, por terem uma forte inclinação para aquilo que buscamos, obriga-nos a um exercício de olhar para o outro, para o que está feito, e compararmos.

Normalmente, sem qualquer tipo de ironia, consigo ver que a índole de um projecto nasce de propósitos incorrectos quando busca “inspiração” em fontes de comum acesso, que funcionam apenas para promover o que nalguma área esteja a ser feito. I.e, se tivermos, no caso do design de produto, a desenhar um aspirador, procuramos os catálogos das várias marcas presentes no mercado e vemos onde o nosso to be product  se insere.  Este é um exercício de olhar para trás e pensar “ok, aqui não destoamos muito e estamos integrados”. Parece que não nos ensinam a pensar de forma a questionar o mesmo sistema no qual o nosso produto se inserirá.

"Napoleon Dinamite", 2004.
Frame do filme “Napoleon Dinamite”, de 2004.

Se bem que na psicologia qualquer tipo de comportamento humano pode ser considerado patológico, existem algumas pistas para o estudo de como agimos. Podemos sempre perceber um defeito como uma virtude,  já que teimosia pode ser perseverança, mas ainda assim caímos no comum balanceamento do bom/mau. Há quem defenda e estude as diferenças neurológicas e as características específicas que indivíduos com patologias possuem ou tendem a desenvolver.  Neste estudo indica-se a necessidade de substituir “inabilidade” ou “doenças” por um paradigma mais abrangente de diversidade, onde se incluem tanto as forças e as fraquezas assim como a ideia de que a variação pode ser positiva por si.

Uma destas definições úteis para nomenclar este tipo de comportamentos é a normose. Vista como uma doença mental, não é menos do que, nas palavras de um dos autores responsáveis pelo seu estudo (P.Weil) “(…) um conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir, que são aprovados por consenso ou por maioria em uma determinada sociedade e que provocam sofrimento, doença e morte.”

Roberto Crema define uma pessoa normótico como “aquela que se adapta a um contexto e a um sistema doente, e age como a maioria.” Esta atitude, de rebanho da maioria, num contexto criativo onde a novidade/originalidade são fruto muitas vezes da não conformidade elimina qualquer possibilidade de evolução ou rompimento com o actual. Aqui até vejo um certo paralelismo com um provincialismo míope que procura no estabelecido uma afirmação pela certeza. No fundo queremos ser normais, mesmo que sejamos alternativos ou diferentes. Leloup, o terceiro co-autor do livro Normose, fala precisamente disto ao definir Normose como “(…) um sofrimento, a busca da conformidade que impede o encaminhamento do desejo no interior de cada um, interrompendo o fluxo evolutivo e gerando estagnação.”

Um dos ensinamentos que fixei quando estudei na ESAD.CR, dita pelo professor Mário Caeiro, foi o do peripatetismo de Aristóteles, onde o passeio, o ser pateta, o ser deambulante, o não ser normal, contribui para o desenvolvimento do pensamento filosófico.

Não querendo rotular a técnica de denominador comum para a camuflagem da mediocridade, acho que normose enquanto fenómeno da mente expressa bem aquilo que muitos de nós, muitas vezes faz. Ou seja, imiscuir-nos na indulgência de que se toda a gente faz isto e que eu também devo fazer algo semelhante, perdendo assim a oportunidade de me poder expressar realmente enquanto indivíduo e cidadão. Acho que não vale a pena tentar ser demasiado normal. Mais vale ser parvo. Sejam Parvos!

 

 

 

Anúncios

Autor: sellmayer

Paulo Sellmayer is a portuguese/german designer based in Leiria, Portugal. He is the creative director at VICARA and holds his own office.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s