Coisas #7 Água de Fátima

Para poder escrever sobre um assunto que não lembra ao menino Jesus, decidi debruçar-me sobre água. Mais propriamente água de Fátima, esse vulcão de milagres, segredos e sandes de leitão.

Sagrado é o coração de Maria. Já todo ouvimos esta expressão. Ora e a água de Fátima? É sagrada?

No outro dia, lendo uma notícia partilhada no FB por amigos reaccionários, vi que a Nestlé se prepara para dominar o mercado mundial da água. Querem que seja privatizada. Toda. Fazendo com que seja possível dizer esta alarvidade: “aquele meu banho de iogurte grego soube-me a maracujá”. Porque no fundo são os melhores e isto tinha de ser dito 🙂

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Água de Fátima _ Imprópria para consumo

Fora de delírios oníricos, eu acho que a água de Fátima deve estar para ser privatizada e percebo bem porquê. Existe um produto, com muita aceitação em Fátima que são umas garrafinhas, com formas várias, para transportar “Água de Fátima”. Pode até nem ser própria para consumo, signifique o que isso significar, mas transporta o bem essencial de forma desprestigiante para algo que até vem de terra milagrosa.

Existem contentores em forma de peixe, porque sim, em forma de garrafão de 5 litros já que água não te leva ao céu, e um sem número de tamanhos para diferentes carteiras, credos e acreditações.

Aqui aceito a privatização da água. Então como é que podemos garantir que uma coisa se pode vender como sagrada se é produzida/processada pelo Estado? E a laicização do Estado onde fica? Há que separar as águas.

Assim, deve-se garantir  que há padres, competentes, para abençoar a dita. Podemos também falar, apostando somente num mercado alvo alto, da sua bentificação, canelonização ou santinificação. Muita marca já se criou com menos. Benta deve valer mais do que sagrada, canelonizada é um piscar de olho ao charme italiano e santinificada porque no fundo todos sabemos que a base de um bom gelado está na água.

Estratégias de valor acrescentado é o que precisamos neste burgo. Vender água como se valesse mesmo mais do que custa ao sair da torneira, em garrafinhas que nem por solidariedade industrial vamos comprar à Marinha Grande com a lata de as salvaguardar como impróprias para consumo. De facto é difícil engolir isto de um trago só.

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Design Performativo

Acho que a performance trouxe um carácter humano à arte, à sua expressão. Adicionando um gesto, o do movimento humano. Podemos opor este gesto ao da máquina, já que muitas vezes aparecem associados seja através de mecanismos complexos ou de simples ferramentas como um lápis ou um serrote. Apesar de não sermos máquinas estas são desenhadas por nós e manipuladas por nós.

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Dedo Message Board by Gonçalo Campos

Performance, enquanto palavra, surge normalmente associado a desportos, sejam motorizados ou normais, onde se define como realização, feito, façanha ou desempenho e se avalia a sua qualidade. Porém, e a noção que aqui importa reter, é a de que o termo reúne em si um conjuntos de expressões humanas como forma de arte, designando inclusive um género, performance art. 

No que toca ao design de produto, este é um aspecto explorado de variadas formas, sendo aliás imperativo que assim o seja visto que os objectos existem para serem usados, para desempenharem uma função e são feitos de um determinado modo.  Acho mesmo que pode ser encontrada esta característica em quase todos os objectos sendo que é explorada de forma diferente por vários designers.

 

Sem que me proponha a fazer uma categorização exaustiva, acho que podemos, primeiramente, fazer uma distinção básica e polarizada de objectos cujo design tem algo de performativo. Vou também focar-me no design de produto português, já que acho ser um campo fértil nesta matéria.

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Pottery is not dead by Jorge Carreira e Fábio Fernandes

Num extremo vejo que envolve a acção da construção enquanto retentora do processo de materialização do objecto. Resquícios da acção envolvida na produção servem-nos de memória quanto ao acto, valorizados na acepção de que o objecto requer manipulação ou mecanização. Metodologias focadas no processo de manufactura, criação de processos específicos e/ou acepção da errática habilidade humana para a repetição são aspectos encontrados de forma recorrente nalguns projectos.

Penso que se podem identificar facilmente alguns projectos que entram nesta categoria, como muitos projectos do designer Fernando Brízio, que aliás é responsável pela formação de designers que exploram esta característica no seu trabalho, como o Jorge Carreira ou o colectivo Projecto Morphe.

 

O outro extremo envolve a categoria de objectos que são desenhados para performarem uma acção/função. Retiro desta análise máquinas que precisam de ser operadas para, por exemplo, tirarem café.

Objectos que promovem uma acção, um comportamento, um gesto, que não são estáticos, e exigem uma manipulação que o designer preconcebe, tendo mais ou menos graus de liberdade de utilização, em que o resultado de serem operados, num sentido mais corpóreo e humano do verbo, é inesperado. Objectos cujo fim apenas se completa com o teu gesto.

Vou dar como exemplo um projecto do designer Fernando Brízio, o contentor/máquina de desenho furo desenhado para a Matéria, e o memo board Dedo desenhado por Gonçalo Campos.

 

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Furo by Fernando Brízio para a Materia

No miolo destes extremos existe a possibilidade de os combinar oferecendo alternativas onde se cruzam estratégias de performance presentes nos dois.

O corpo é acção e o movimento uma das nossas expressões. Mesmo a casa/habitat-doméstico é uma expressão da mutabilidade da vida. Nós somos performers na nossa existência, (sic.) cliché.

No fundo acho que é uma característica bem presente no design de produto português, onde a falta de indústria e de marcas apagam o protagonismo do design útil e funcional para darem espaço à liberdade de utilização do corpo como ferramenta de expressão.

Vidas de Vidro

Uma das fases mais custosas no desenvolvimento de um produto novo, em termos de tempo e de investimento, é a da prototipagem. Tens de fazer e ver para crer, usar e experimentar. Por melhor que desenhes à mão ou no computador nada te dá a sensação de teres na mão aquilo que projectaste.

Mas claro, se tivermos a desenvolver uma embalagem de cartão, a facilidade de construir protótipos e pequenas maquetes ajuda nos processos de decisão.

Porém, existem matérias, processos de fabrico e escalas em projectos que nos dificultam a vida, dada a dificuldade de os simular. É como fazer sumo de uva quando se quer testar a qualidade do vinho.

Um desses casos é o vidro. Não bastasse o facto de que desenhar coisas transparentes com o brilho e expressão pretendidas é um dos testes de admissão para assistente de um Da Vinci, também o vidro enquanto matéria não se permite a simulações usando plasticina para fazer uma travessa de pyrex ou uma jarra da Jasmin.

Algumas das peças produzidas no workshop de produção de vidro em molde. À frente peças do designer Jorge Carreira
Algumas das peças produzidas no workshop de produção de vidro em molde. À frente peças do designer Jorge Carreira

Existem no entanto algumas possibilidades de testar e experimentar com a matéria e com os vários processos de produção existentes.

Por exemplo, o CENCAL, na Marinha Grande, que desempenha de forma excelente o seu papel de formação de técnicos profissionais ligados ao ramo. Para além disso serve também de laboratório onde se podem experimentar formas e processos inovadores, sem a pressão de uma linha de produção ou os tempos de desenvolvimento de protótipo exigidos pela indústria. Ou seja, nos cursos e workshops de formação de técnicas de vidro soprado c/ e sem molde orientadas por um vidreiro experiente podem-se experimentar um sem número de possibilidades. Porreiro não? Ah e as formações são de borla.

Num contexto onde a dificuldade do sector é notória, apesar de hiperbolizada como quem está nas urgências com uma constipação à espera de vez e só berra “ó mãe ó mãe” porque talvez assim lhe dêem atenção, o CENCAL ainda assim é um motor de inovação, onde existe espaço para explorar as técnicas e os materiais.

Têm surgido projectos de designers e artistas que renovam o interesse nesta indústria, provando que um ofício ou técnica artesanal não precisa simplesmente de ser deixada a morrer. Projectos dos designers Vítor Agostinho ou Samuel Reis nasceram no seio destes workshops/formações e dão uma nova vida a quem vaticinava o sector como moribundo.

Esta lógica de experimentação é o fulcro para o qual a indústria devia estar centrada, seja no sector do vidro ou outro. Porque permite a experimentação, porque dá lugar à criatividade, porque forma quadros competentes e conhecedores da cultura material necessária para a criação de uma certa “novidade” relevante. Sem espaço para a criatividade é difícil ser se criativo. Acho que têm de haver mais ferramentas que dêem esse espaço aos criativos.

 

Métodos de Trabalho

No contacto que tenho tido com algumas manufacturas e fábricas de produtos específicos, tenho notado que existe uma séria dificuldade em contratar pessoas para efectuar tarefas manuais qualificadas. Falta de lapidários, latoeiros, soprados de vidro e soldadores sobretudo. Os responsáveis por estas indústrias queixam-se do envelhecimento do seu tecido laboral e da falta de renovação. Dizem que não há formação específica mas que de uma forma geral não há interesse em aprender uma profissão.

Tenho contrapondo com o facto de que a minha geração, que ainda não chegou aos trinta mas que já trabalha há uns anos e mesmo os que agora estão a começar a trabalhar, não está habituada nem almeja uma profissão, um trabalho prolongado. Não fomos bem preparados para isso, e existem mais recompensas sociais em estar empregado numa loja de um centro comercial do que passar 40 horas por semana a soldar para receber o mesmo. O trabalho manual não é glamoroso. É repetitivo, duro fisicamente, e não oferece grandes regalias sociais, já que envolve o silêncio e a constante pressão do tempo de execução.

Acho que para que este tipo de trabalhos se torne mais aperitivo os patrões têm de ser criativos. Poderia falar da formação ao nível profissional como uma forma de colmatar algumas destas lacunas mas não quero ir por aí. Têm de ser os patrões a tornar esse trabalho apetecível, correndo o risco de terem de simplesmente deixar de operar se assim não for.

Proponho uma racionalização do trabalho duro. Isto é, passando os trabalhadores manuais para um regime de meio/meio, onde por exemplo de manhã farão o seu trabalho na fábrica, dedicando o restante tempo a trabalhos administrativos ou de manutenção. Este modelo pode ter variações, como sendo um emprego part-time bem pago, onde em 5 horas diárias se conseguem retirar valores próximos de um emprego a full time num shopping.

Este modelo de inovação social, para que o tecido da manufatura em alguns sectores se mantenha, passa por dar ao trabalhadores a possibilidade de usarem as condições de trabalho, máquinas sobretudo, para desenvolverem os seus próprios trabalhos como forma de adicionarem algum rendimento ao seu orçamento familiar, bem como de poderem fazer parte do organismo fábrica, podendo intervir, melhorar e modificar as suas condições de trabalho.

Fábricas de co-produção, entre encomendas dos patrões e trabalhos auto propostos, parecem-me a mim são o modelo a seguir.

Coisas#6

A semana passada andei a ver de calculadoras. Como qualquer consumidor tento fazer uma compra informada. Vejo que produtos desejo, onde os posso encontrar e que preços têm. No final balanceio estes factores e adquiro o produto pretendido. Normal.

Lembrei-me que o estúdio Industrial Facility, dedicado ao design de produtos com trabalho para várias marcas como a Lacie, a Louis Vitton ou Grendene, já tinha desenhado uma calculadora. Este produto é um exemplo de como a inovação no design de produto às vezes implica apenas associar elementos conhecidos a uma função pretendida. No caso, os botões de uma calculadora. Que melhor do que teclas que já usamos todos os dias e que por isso nos são familiares para serem os botões de um objecto comum? Assim, torna-se fácil de “entender” um objecto novo.

Bem, sorte a minha porque vi que têm uma loja online no sites deles e dava para encomendar directamente. Assim já dava para fazer contas em estilo. Não habituado à moeda, libras, ainda fiquei confuso e pensei que tinha desvalorizado ao nível do kwanza.  Mas não, 199 £. Por uma calculadora. De plástico.  Quase que podia ser feita com teclas de teclados antigos recolhidos no electrão. Mas não.

Produzido em larga escala e ainda assim são € 262,55. 

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Calculator, Industrial Facility. Produzido por IDEA, Japão.

Pensei que de facto “lá fora” isto deve ser normal. Aliás, nem vejo porque um telemóvel não deva custar 17000£, já que para além de fazer contas tira fotos.

Enfim, ainda há quem critique o desbravar-terreno de designers para campos mais dedicados à escultura e de edições limitadas, onde os preços exorbitantes incomodam quem acredita na filosofia existente na génese da disciplina: através de uma produção industrial racionalizada mais pessoas terão acesso a mais bens de consumo a um preço inferior. Pôr máquinas a realizar o trabalho de pessoas/artesãos promove uma descida de preços dos produtos. Mas para quem defende a filosofia do good designparece estranho promover a existência de um mercado muito alto acessível a muito poucos.

Entretanto deixei-me ficar por um exemplar da Lexon, que tem bastantes coisas interessantes de estacionário de escritório, que vi na Arquivo e que me custou 10.