Feiras e Freiras

Esta semana estive na Maison & Objet a expor, enquanto director criativo da VICARA. O ano passado estivemos tanto em Janeiro como em Setembro.

Para quem nunca foi, este certame comercial é um dos mais importantes e significativos a nível mundial, nas categorias de casa e lar. A Europa afirma-se como o centro cultural do Mundo, sendo que Paris, através do seu encanto ligado à moda e glamour, é um polo atractivo para hordas de visitantes asiáticos e americanos, para além dos inúmeros visitantes francófonos. Entre croissants e bratwursts é escolher, já que a imm Cologne se dá na mesma altura em Janeiro.

É nesta feira que nasce a ideia do luxo barato associado à indústria portuguesa. É mesmo comum a ideia de que Portugal é a China da Europa, tanto ao nível da manufactura como ao nível da cópia. Umas marcas servem de inspiração para outras, sendo que o valor inovador está na remistura. Somos bons a fazer cocktails. Grande exemplo disso é o Mdf lacado como sucessor das madeiras exóticas usadas na construção dos famosos contadores das Descobertas Marítimas. Continuemos nos apliques dourados, puxadores dourados, pés de aparadores dourados, cofres de ouro; no fundo, acabamentos românticos que perfumam a casa com a essência de pato bravo, comum no habitat de onde estas peças de mobiliário provém. Desde que tenha ou pareça ouro até a invólucro de Ferrero Rocher se cobre MDF.

A noção de que em Portugal se fabrica bem misturada com a ambivalente capacidade para se vender lebre, da boa, ajudam para a construção de um certo savoir faire tuga.  É o luxo decadente da era dourada do Convento de Mafra. No fundo percebo, é um mercado que movimenta grandes volumes anualmente e se baseia nas mesmas tecnologias de produção que nas imediações de Paços de Ferreira imperam. Danifica porém toda e qualquer tentativa de impor um pensamento de design que seja português. Pelo menos nesta feira.

É nesta falta de lugar para expor e mostrar o que aqui se faz que agora me ocupo. Não temos uma feira, nem uma feirita mostra bienal evento que promova o que se produz em Portugal de uma forma que haja gente a vir ver, que haja gente interessada em vir ver. Usando a analogia da preferência de um croissant a uma bratwurst, gostando dos dois, trocava-os rápido por um tempo ameno, possibilidade de ir à praia e uma bifana. Turismo é um sector no qual temos de apostar. Certo, pode ser visto como uma exportação sem custos de transporte. Mas não há espaço! Não temos mercado interno, o que obriga à tradução de qualquer tagline de empresa por “90% de exportações”.

Ou seja, a estarmos obrigados a uma lógica de exportação quase total, agradando a quem nos compra, não estamos interessados em criar uma lógica identitária forte. Acho que a percepção europeia do design português, já que o desenvolvimento de equipamentos para a casa é um output clássico desta métrica, é a de que fingimos o luxo e fazemo-lo barato.

Eu, e muita gente, não se revê nesta operação. Há talento para mais, precisa-se é de espaço para o pôr à prova. Agradecem-se sugestões.

 

Carros e legislação

Cada vez que morre alguém num acidente de automóvel a pena instala-se. Não é só por uma morte rápida e impiedosa que não avisa, mas também porque a pessoa, por mais culpada do acidente, não merecia.

Eu acho sinceramente que devia ser legislada a segurança total no carro. Não está na prevenção, está na produção de veículos mais seguros. Veículos que apenas se possam ligar/iniciar quando o cinto está posto, e que o trancam durante a viagem para não ser removido. Veículo que não possam passar dos 140 (120 + 20 para poder fazer ultrapassagens). Construídos de raíz para tal. Para serem lentos, mas seguros e eficazes. Para não morrerem mais pessoas apenas porque o velocímetro do carro tem de marcar o sonho da velocidade de uma sociedade insaciável por progresso. Chega! É que, convenhamos, nada vende mais veículos do que o sonho de ser Fangio, mas, e é esse o ponto fundamental, nada mata mais pessoas na estrada do que querer ser o Ayrton Sena do bairro.  Há que não ter medo de mudar a lei e tornar o carro num meio de transporte sem incidências fatais ou mutiladoras. Que se lixe a liberdade dos 200, já que para ser livre e poder matar e morrer porque me deixam é, a meu ver, uma maneira errada de promover liberdade. Morto não sou livre, estou morto.

Os carros autoconduzidos ou, noutra medida, ou carros elétricos já prevém isto. Os primeiros porque relegam para a máquina o erro que, acautelado, dirige a viatura de uma forma lenta e segura. Os segundos porque, era uma piada. Não passam dos duzentos, quase todos 🙂

O mesmo se pode dizer em relação ao álcool, ao cansaço e às medicações. Também podiam haver menos estradas. A pé não se morre tanto.

 

De volta

Após quase 4 anos de hiato, este blog está de volta.

Seguindo o propósito inicial, de designificar o mundo, escrevendo sobre assuntos relacionados com objectos, produtos e assuntos que se inscrevam nessa esfera.

Vou tentar manter uma certa constância de posts, esperando contribuir assim para um diálogo, mesmo que silencioso, sobre o design de produto em Portugal.