Falhanços, problemas e falhas

Um exercício de escola comum com que normalmente é iniciada a formação enquanto designer é o de observar o mundo em nosso redor e projectar soluções para os problemas detectados. Pelo menos esse foi o meu 1º briffing para projecto I. Pouco sabia sobre o que era a disciplina de design, e acho que pouco efeito surtiu tal exercício tão largamente repetido. Parecida que estávamos a ser reflexo da ainda tradição secular da escola de Ulm, Bauhaus tardia e portanto quase moderna aos olhos da nossa, portuguesa, percepção cultural do que vem lá de fora. 

Embora tivesse alguns reflexos, sobretudo no modo de ver que o enunciado nos pedia para mudar, constantemente à procura de falhas, coisas por resolver e problemas aparentemente invisíveis, este exercício afasta-se daquilo que hoje vejo como sendo uma das principais forças motrizes do meu trabalho, provocar problemas. E por problemas entendo não aquelas evoluções naturais, sejam sociais ou tecnológicas que operam no seio do nosso quotidiano, e que por isso mesmo são quase que expectáveis, mas sim procurar provocar rupturas com os sistemas estabelecidos, criando assim novos paradigmas pelos quais posteriormente serão comparados todos os outros actos de criação. Criar problemas soa a reguila mas o troublemaking é uma ciência por si, dizia o Dennis, o pimentinha. Mudar o mundo, e não salvá-lo senão de nós próprios. Acho que é isso que um designer deve tentar fazer.

Esta procura por “problemas” , agora entre aspas, não é de todo dispensável do processo criativo. Sobretudo numa fase de apreensão e análise do que nos rodeia. Se alargarmos o espectro de busca e incluirmos áreas como a etnologia, comportamentos humanos, a sociologia, regras e valores sociais, as ciências, e o seu desejo em inteligenciar todo o mundo natural, em vez de se tentar melhorar ou inventar gadjets ultra inovadores talvez se consigam chegar a um conceito para um projecto que tenha impacto real, not tecnocratic. Aquilo que muitas vezes é rotulado de conceptual não é mais do que uma coisa pensada para além do tecnocracismo actual em que derivações de soluções existentes se concebem como inovadoras.

Mesmo assim há hoje sites excelentes que providenciam a bela da comida para pensamento, camarõezinhos secos para peixinhos humanos em aquários estanques, como o misuse.su  ou o failblog.org. Enjoy!

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Autor: sellmayer

Paulo Sellmayer is a portuguese/german designer based in Leiria, Portugal. He is the creative director at VICARA and holds his own office.

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