Designing for people

Acabei hoje de ler o livro, do Henry Dryfuss, que dá o título a este post.  Motivado pela designação de clássico propus-me à tarefa da sua leitura em inglês. Nem sei se há alguma tradução para o luso/brasileiro literário.  O acordo ortográfico entre os dois países, arautos assim o diziam, não previria uma maior democratização de uma literatura especialmente técnica, de difícil acesso e comunmente aceite como sendo impracticável, a nível financeiro, a sua tradução ? Onde pára então o CPD e as suas edições que nos possibilitavam aceder a livros e edições que realmente nos edificavam, visto haver no panorama português, quase ou mesmo nenhuma, edição de conteúdos respeitantes ao design e à criatividade.

Àpartes à parte, já me julgava enganado por este ser considerado um clássico e consequentemente um must read já que além de um capítulo dedicado a sumarizar os muitos anos de experiência do senhor Dryfuss e do seu departamento de design em 5 máximas aplicadas religiosamente a cada projecto, o livro oferecia apenas quase que um guia dos porquês de contratar um designer industrial para gestores e business men, já que é de não esquecer que foi primeiramente editado pela D School de Harvard. Desde telefones máquinas industriais arados e tractores a aviões autocarros e carros, a sua colaboração com os diversos ramos da mega industrializada América é extensíssima.  Descreve inúmeros episódios com os quais se deparou no desenvolvimentos destes projectos, alguns melhoramentos e apontamentos que fizeram a produtos existentes, relaciona muito bem objectos dentro de sistemas como no caso dos telefones para a Bell corp. e apresenta sobretudo uma visão marketizada da concepção de novos produtos que, muito embora possa ter a mesma conotação do streamlining que se tornou estilo, é ao mesmo tempo pragmática e sonhadora.

O maior ensinamento vem porém logo anunciado na capa e explanado poucas páginas depois do prefácio editorial.

“We bear in mind that the object being worked on is going to be ridden in, sat upon, looked at talked into activated, operated, or in some other way used by people individually or en masse.

When the point of contact between the product and the people becomes a point of friction, then the industrial designer has failed.

On the other hand, if people are made safer, more confortable, more eager to purchase, more efficient – or just plain happier – by contact with the product, then the designer has succeeded.”

A surpresa porém, e que fez ganhar a minha admiração pela obra e despoletou este post, vem no Appraisal da edição de 1967, de notar que a 1ª edição data de 1955. Aqui Dryfuss consegue as suas mais admiráveis afirmações que dissiparam quaisquer dúvidas que puderia ter no sentido de achar de certa forma aborrecido o trabalho deste homem, que seguia apenas fórmulas mas que assim sendo oferecia segurança na contratação dos seus serviços por grandes empresas. Consegue passar por sonhador e visionário fazendo previsões para o restante meio século que se avizinhava, acertando em algumas coisas semi óbvias como os telefones terem micro câmeras e o Homem viajar no espaço. Falharam foi no lapso temporal, já que essas inovações se realizaram bem antes do tempo previsto.  A capacidade especulatória é uma das mais importantes ferramentas que o designer tem ao seu dispor para, mesmo que embrenhado na dita  previsível indústria dos consummer products, potenciar a criatividade.

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Falhanços, problemas e falhas

Um exercício de escola comum com que normalmente é iniciada a formação enquanto designer é o de observar o mundo em nosso redor e projectar soluções para os problemas detectados. Pelo menos esse foi o meu 1º briffing para projecto I. Pouco sabia sobre o que era a disciplina de design, e acho que pouco efeito surtiu tal exercício tão largamente repetido. Parecida que estávamos a ser reflexo da ainda tradição secular da escola de Ulm, Bauhaus tardia e portanto quase moderna aos olhos da nossa, portuguesa, percepção cultural do que vem lá de fora. 

Embora tivesse alguns reflexos, sobretudo no modo de ver que o enunciado nos pedia para mudar, constantemente à procura de falhas, coisas por resolver e problemas aparentemente invisíveis, este exercício afasta-se daquilo que hoje vejo como sendo uma das principais forças motrizes do meu trabalho, provocar problemas. E por problemas entendo não aquelas evoluções naturais, sejam sociais ou tecnológicas que operam no seio do nosso quotidiano, e que por isso mesmo são quase que expectáveis, mas sim procurar provocar rupturas com os sistemas estabelecidos, criando assim novos paradigmas pelos quais posteriormente serão comparados todos os outros actos de criação. Criar problemas soa a reguila mas o troublemaking é uma ciência por si, dizia o Dennis, o pimentinha. Mudar o mundo, e não salvá-lo senão de nós próprios. Acho que é isso que um designer deve tentar fazer.

Esta procura por “problemas” , agora entre aspas, não é de todo dispensável do processo criativo. Sobretudo numa fase de apreensão e análise do que nos rodeia. Se alargarmos o espectro de busca e incluirmos áreas como a etnologia, comportamentos humanos, a sociologia, regras e valores sociais, as ciências, e o seu desejo em inteligenciar todo o mundo natural, em vez de se tentar melhorar ou inventar gadjets ultra inovadores talvez se consigam chegar a um conceito para um projecto que tenha impacto real, not tecnocratic. Aquilo que muitas vezes é rotulado de conceptual não é mais do que uma coisa pensada para além do tecnocracismo actual em que derivações de soluções existentes se concebem como inovadoras.

Mesmo assim há hoje sites excelentes que providenciam a bela da comida para pensamento, camarõezinhos secos para peixinhos humanos em aquários estanques, como o misuse.su  ou o failblog.org. Enjoy!

Made out Portugal

Quando fui estagiar para o Julien Carretero Studio em Eindhoven, na Holanda, estava longe de imaginar que a diáspora portuguesa de designers fosse tão grande. Logo após  o Salone del Mobile de 2010 em Milão onde conheci o Bruno Carvalho, mentor do projecto, travei conhecimento, numa reunião semi informal passada na relva junto aos canais de Roterdão onde apresentámos os nossos trabalhos, com um grupo de jovens, como eu, portugueses, meias idem aspas, que escolheram a Holanda para prosseguir o seu trabalho enquanto designers de produto.

O Made out Portugal tem sido uma experiência fantástica de apoio a exilados, ou ex-exilados como eu, que procuram no lá fora prolongar a sua existência profissional nas diversas feiras e exposições de design que povoam o calendário europeu. Tenho aprendido muito. A apresentação em colectivo tem dado frutos tanto ao nível de promoção da marca portugal, se bem que um tanto ou quanto irreverente ao contrário de “plataformas” como a portugal brands, mas também tem servido para promover-nos individualmente ao mesmo tempo que todos nós, os participantes, extraem invaliáveis experiências na troca de contactos, feedback de visitantes e na publicação de conteúdos que no final, mais do que nos valorizar a nós, representam a adquirição de conhecimentos que procurávamos.

Finda a experiência na DMY Berlin deste ano, agora é tempo de balanço e de ganhar balanço para finalizar projectos em curso.