memoribilia

Estive a rever um texto que tinha encontrado há uns tempos na net sobre Fernando Pessoa.  Para além de ser um registo do reconhecimento que Fernando Pessoa tem no estrangeiro a notícia publicitava o leilão da correspondência que mantinha com Aleister Crowley.  O diálogo era sobre um assunto do interesse de ambos. O ocultismo. A passagem das cartas para as mão de privado e a perca do património levanta questões de interesse nacional de que o artigo tratava.

Imagino num futuro serem fruto de cobiça de colecionadores todo o tipo de  twitt’s e status de facebooks e posts em blogs produzidos por personagens marcantes da história. Cada pedacinho de informação que essa pessoa possa ter deixado para traz a ser mitificada e reconhecida. Ainda é cedo para ver os efeitos,  talvez só quando o meio de comunicação se tornar obsoleto é que vão ter valor suficiente para poder suscitar interesse nalguém. Como os Lp’s, assumirão um papel de parafernália nostálgica? Relembrando-nos daquilo que foi o passado e como foi registado. Contudo, prevejo que nunca assumirão o valor que uma carta tem. Um pedaço de papel que foi escrito por um determinado indivíduo, numa hora exacta, acerca de tal assunto e que secalhar nunca ninguém mais soube vale mais do que um mail. Quer dizer, tem de valer. Guardavam-se cartas guardando cada pedacinho de comunicação que houve, muitas das vezes por apenas duas pessoas. Agora parece parvo guardar sms’s de uma pessoa querida, ao ponto que aquelas histórias amor vividas num tempo passado eram muitas vezes acentuadas pelo valor simbólico de um pacote de cartas que perpetuava uma relação dolorosa, passada há distância, vivida apenas ali, naqueles pedaços de papel. Todo o melodrama da carta resume-se, hoje, ao dilema de enfrentar um aviso de “s/ espaço para mensagens” e ficar sem saber se alguma das mensagens era importante quando se carregou no “apagar todas as mensagens lidas”. A Nokia simplifica às vezes.  Porém existem substitutos elegíveis a este guardar de recordações.

Quem não tem guardado um bilhete de um concerto que gostou muito? Talvez até só uma t-shirt com o nome do cantor.. Tenho muitos bilhetes de concertos a que fui, posters de exposições que vi e postais guardados. Coisas que vivi. Registadas ali, naquele pedaço de papel. Em tempos colava tudo na parede do meu quarto nas Caldas. No final do ano pude ver o que vivi, e guardar as memórias visualmente. Quase todos os acontecimentos tinham um referente que se traduzia num haste de uns óculos de carnaval ou no poster de uma das festas da escola. O espaço por nós vivido e ocupado grava as nossas memória através dos objectos que vamos colecionando?

Quem não viu a Amelie e não achou terna a cruzada de uma doce jovem empenhada em encontrar um senhor para restituir aquilo que mais significava para ele. Objectos que guardavam a memória da sua vida.

Ainda hoje se colecionam objectos.  Mas parece que, ainda, se escolhem sobretudo referências físicas, coisas que nos agarram ao nosso percurso e que existem mesmo. Poderão ter vivências digitais ser guardadas para a eternidade e obterem o mesmo valor simbólico que hoje em dia objectos físicos têm?

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Coisas #5

A fita do bonfim é um típico suvenir e amuleto de Salvador da Bahia, no Brasil. Aquele clássico primeiro suvenir e depois amuleto da sorte que ajuda a fazer milagres, no fundo uma direcção assistida da fé. Fácil. Grande negócio. O Credo é o melhor Marketing de sempre. Pôr as pessoas a acreditar em algo é a melhor forma de vender coisas. No fundo este objecto é o Credo em si.  Bem aqui está algo mais informativo, vindo da net, unedited, cortesia do novo acordo ortográfico :

A História
A fita original foi criada em 1809, tendo desaparecido no início da década de 1950. Conhecida como a “medida do Bonfim”, seu nome é devido ao fato de que a exacta medida de 47 cm de comprimento, é o braço direito da estátua de Jesus Cristo, «Senhor do Bonfim”, situada sobre o altar mor da igreja mais famosa da Bahia. A imagem foi esculpida em Setúbal, em Portugal e no século XIII. A “medida” era feita de seda, com o desenho e o nome do santo bordados e complementada com tonalidade dourada ou prata. Foi usado em torno do pescoço como um colar, onde santos e medalhões estava suspensos, funcionando como um tipo de moeda: após a fazer uma  promessa, os fieis carregavam uma  foto ou uma pequena escultura de cera representando a parte do corpo que tinha sido curada com a ajuda do santo. Como uma lembrança, estas fitas seriam adquiridas, simbolizando a própria igreja.
Ninguém sabe quando ocorreu a transição entre o antigo estilo de fita e o novo  (usado em torno do punho), embora a nova fita tenha sido popularizada pelos vendedores ambulantes de Salvador em torno da década de 1960, quando foi também adoptado pelos hippies baianos  como parte de seu estilo de vestir.
Cores
Vendida em diversas cores , a Fita do Senhor do Bonfim possui um lado que poucos realmente conhecem: cada cor simboliza um Orixá (ou divindade da religião ioruba). Verde escuro é para a divindade Oxossi. Azul Claro  para Iemanjá, Amarelo para Oxum … Seja qual for a cor, a fita possui uma  representação típica simbólica, estética e da cultura afro-brasileira. Falando praticamente, as cores representam várias palavras positivas (como o azul para prosperidade).

Uso
Uso das famosas fitas foi utilizada por  designers brasileiros localmente e nacionalmente de muitas maneiras diferentes. Para ver um exemplo, veja esta página de Namira. Além de sua declaração de estilo,o usuário  deve ter três nós atados e se a fita cai, naturalmente, os desejos serão concedidos. Segundo a Travelvice.com … [ Vulgo: a explicação científica do milagre ]

“Várias hipóteses de um milagre, ou chances para múltiplos milagres, são obtidos quando o usuário faz um desejo de cada vez que os  três nós são amarrados para segurar a fita a volta do punho.
Nenhum  desejo, será concedida a menos que a fita seja deixada a volta do pulso até se desintegrar naturalmente , e cai a partir do pulso do seu próprio acordo. Se você remover ou cortar a fita os desejos não vão ser nunca ser realizados e você vai atrair má sorte e infortúnio .

Se você pretende perseverar e deixar a fitinha amarrada , isso é  um compromisso sério. Pensa-se que a fita  típica  cair depois de alguns  meses, mas eu tenho lido histórias de fitas permaneceram intactas de seis meses a dois anos depois que eles foram amarrados!
Houve uma fonte na Internet que disse que você nunca deve comprar a sua  própria fita, mas apenas aceitá-las como brinde. Além disso, alguns sites mencionam que um terceiro deve amarrar os nós para você, quando você faz os seus desejos .”

Aquilo em que acreditas materializar-se-á. Enquanto que a promessa à Nossa Senhora terá de ser paga se for cumprida, e paga na mesma se não for, já que trabalho de consultadoria não é fácil, a “pulseira” (até entre aspas é ofensivo) quando se desmaterializar, o desejo concretizar-se-á.   Quanto mais elaborada a eventualidade e difícil de executar o castigo mais probabilidade há de se vir a concretizar. De joelhos não é a mesma coisa que de calçado desportivo, com equipas de apoio  e GNR’S  solícitos a indicar o caminho seguro. Assim, de certeza, vamos também ter crise de milagres!

Desde de que se mantenham certos requisitos técnicos para o credo se concretizar, credos como : atirar a moeda de costas para uma fonte,  entrar no campo com o pé direito ou se o revisor vier em 7 segundos o Manech não está morto, funcionarão. Audrey Tautou anda a povoar muito os meus posts, mas o filme em que isto acontece faz me acreditar (também sou um crente) que às vezes basta mesmo apenas crer, sem -q de quá-quá, para que as coisas aconteçam.

Imediato

Andava há uns tempos com este tema na cabeça mas foi um texto que encontrei, por entre escombros da antiga fábrica de cereais da Ceres em Caldas da Rainha, onde agora tenho o meu atelier, que despoletou este post. A aprendizagem deve ser centrada no fazer, sendo a teoria consequência explicativa da experiência ganha.

Existe uma certa essência lambida em coisas premeditadas. Mastigar e fustigar um pensamento antes que ele se concretize, quer num texto quer numa imagem, fá-lo perder a força da sua origem. Pre-meditar, meditar antes de uma coisa acontecer torna o Mundo um cálculo de aritméticos.  No imediato está o presente dos que fazem. Enquanto que será certamente necessário permanecer algum tempo absorto num pensamento para o desafiar a ir mais além, uma ideia não consegue subjugar, pela sua força imanente, e consequentemente obter a legitimização necessária sem ser exposta de forma espontânea. Sem pensar. Não penses, faz! resolve muitas das dúvidas existenciais de um criador. Passar a agir sobre o feito, sem que as conjecturas atinjam aquela materialidade própria do que só existe fora da cabeça. Em processos criativos, especialmente onde o  fim é um objecto físico, a experiência conduz.

O prazer do fazer também ultrapassa a satisfação da contemplação.

Somos todos fruto de um ensino expectante, que nos obriga a ficar em intervalos de uma hora caladinhos a ouvir até que nos seja dada a palavra ou imposta uma resposta. Célestin Freinet propôs um ensino baseado na experiência, no aprender fazendo. O seu método pedagógico estava apoiado nas Invariantes, directerizes que se mantinham dogmáticas independemente do lugar, do indivíduo e do contexto. Para consulta na wikipedia. Aprecio especificamente esta:

” 13. As aquisições não são obtidas pelo estudo de regras e leis, como às vezes se crê, mas sim pela experiência. Estudar primeiro regras e leis é colocar o carro na frente dos bois.”

A experiência adquirida surpassa a ensinada. A arte do ofício parece simples a quem a define por meio de regras e processos terminológicos. Só fazendo se ultrapassa esse ensinamento. Tenho tentado manter este empirismo nas coisas que faço, e nos processos que conduzo. Espero que possa ajudar a colegas criativos.

Coisas #4

A imagem é de uma caneta que possibilita escrever no escuro. “Writing at night or anytime”, anuncia na embalagem.Dá para escrever até de dia quando há luz. Parece que a sua especialidade é tão específica que até é preciso mencionar que, sim, também escreve durante o dia. Não é uma caneta para escrever à noite, sem luz. É uma caneta que possibilita escrever à noite, sem luz. Comprei-a por 20 cts, num mercado de coisas usadas em Roterdão. Preço justo para uma coisa tão inútil como esta. Deve ter sido inventado por um japonês diria. Povo esse aparentemente obsecado em “resolver” através de inovações tecnológicas todas aquelas situações incómodas da vida humana, como quando não se tem um candeeiro ao lado e se é possuído por uma incontrolável vontade de escrever, ou desenhar. Já me ocorreu por várias vezes escrever algo no escuro e ter de passar um bom tempo a tentar decifrar aquilo que parecia inadiável mas que no fundo era apenas o reflexo de uma ideia no escuro. Não era brilhante. Nem lúcida. É difícil ter ideias no escuro que valham a pena. A sério, é como a correlação entre a taxa de insucesso de suícidios e a hora do dia, que era tão bem ensinada e usada como exemplo nas aulas de Sociologia. À noite, no escuro, podes tentar matar-te. Mas, comprovado pelo estudo, ou te arrependes ou o falta de visão nocturna provoca o terrível falhanço que ainda terrifica mais uma existência à data já perturbada por, poderá ser o caso, falta de confiança em atirar certeiro.  A fitinha, em cores eléctrico oitentas, que serve para a caneta andar sempre contigo, possivelmente ao pescoço, confirma o meu medo de que afinal este objecto foi realmente pensado, já que assim não vais precisar de uma lanterna para procurar a caneta. Clever. Indeed.

tudólogo

Faz um mês que escrevo aqui. Não tenho tido propriamente um ritmo. Uma batida. Escrevo quando quero. Quando acho que devo partilhar algo comigo. Isto é, quando quero que algo saia de mim para ser aqui posto.  Por vezes, nem o quero muito e sai de cesariana. O gajo não quer sair! Deixem-no tar! Sais e sais. E às vezes sai.

Espero ter vontade de continuar a escrever aqui, prevejo algumas alterações na forma de postar que verificarão nas próximas actualizações.

Ao post dito.

Quantas coisas sabes tu fazer? Para cozinhar é preciso cortar cebolas, conhecer uma receita, prever o que se vai cozinhar, degustar sabores para ver se eles colidem ou se incorporam, saber usar um isqueiro para o caso do fogão ser manhoso e no final de contas saborear a comida para não matar ninguém à fome ou por envenenamento com quantidades de sal das quais até o bacalhau fugia. Para ser designer talvez ainda sejam precisas mais. Ando focado em fazer aquilo que gosto, logo o que bem desempenho. Motivado apenas pela minha vontade em exercer forças no sentido que me convém, debruço-me com demasiada frequência na dificuldade de me tornar cozinheiro num dia. De um momento para o outro também sou contabilista e engenheiro de gestão industrial. Então mas não é só um protótipo? Guias de consignação assombram o meu dia que previa um léxico usado rico em expressões de desgosto por uma qualquer cor azeda ou a certeza daquela forma ridícula que todos parecem gostar. O cozinheiro também tem de ser agricultor. Saber como as coisas são feitas, mas deixar essa tarefa a quem a namore.   Afinal de contas sou só um designer.