Necessidade de sobrevivência

A necessidade de sobrevivência leva-nos muitas vezes a fazer muito com pouco, só porque não há outra alternativa. Salve-se quem puder é, por vezes, o prelúdio de épicas cruzadas pelo desenvicilhanço onde a dignidade humana se encontra no mesmo lugar da Maddie. Nowhere to be found. Existe porém um certo interesse em mostrar, da mesma forma que os nossos antepassados evolutivos matavam animais com machados de silex, o cromado ancestral, como

ocorre a criatividade ao espírito em momentos de maior aperto.

Esta imagem vem de um dos últimos artigos do Justin Mcguirk, no The Guardian, em que ele fala disso mesmo. Em Sarajevo, no Museu Nacional, encontra-se presente uma exposição de artefactos fabricados artesanalmente no tempo do cerco à cidade onde a privação de água canalizada e electricidade bem como o acesso a comida de fora fez com que se dessem largas à imaginação na procura de soluções para tornar a vida mais fácil.

 

“(…)the objects attest to the citizens’ bottomless ingenuity and represent a design culture that has nothing to do with leisure, technological progress or social mobility but, rather, survival.”

Nesta pura necessidade de sobrevivência encontram-se exemplos reais espantosos, que Mcguirk refere no seu texto. Filmes como Mad Max e algumas distopias ciberpunk e novelas steam punk já nos apresentaram semelhantes saídas para ambientes próximos do apocalíptico, mas o que aqui interessa retirar é aquilo que Mcguirk refere neste parágrafo:

“We think of design as one of the planes on which civilisation charts its course, measuring ourselves by our technological achievements and our talent for pleasing forms. But when civilisation breaks down, we resort to a cunning DIY culture with the resultant Mad Max mechanics and none of the Hollywood styling. Naive though some of these objects appear, their worth was weighed in how effective they were. In that sense, they represent a rare thing: a non-consumerist design culture. That’s not to say there was not a market for it – one of those pot-stoves would set you back seven packs of cigarettes if you couldn’t make your own – but this was an alternative economy that had nothing to do with novelty, desire or retail therapy. It was about staying alive.”

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Coisas #3

Este instrumento serve para retirar os pinos que ligam os elos das correntes das bicicletas. Possibilita abrir as correntes, para poderem ser colocadas à medida, já que em bicicletas mono-mudâncicas , vulgo pasteleiras, elas estão normalmente mais apertadas, para se poder travar ao pedalar para trás.  Mais vale parado do que a andar para trás, já dizia um alpinista meu amigo. Deparei-me com isto quando tive de mudar o pneu de uma gazelle ou batavus ou flying dutch, enfim era uma bicicleta holandesa. “Vais precisar disto para o puderes fazer”, porque,  claro,  a bike não me pertencia. Só se rompem as câmeras de ar dos pneus alheios.  Perplexo com tamanha especificidade funcional de um objecto aparentemente simples, ainda rompi a tentar justificar a sua existência provavelmente inútil com diferentes formas de desfazer a ligação dos elos das correntes, mas no fim, vencido, concluí que há coisas simples que precisam mesmo de uma coisa complicada que existe somente para aquilo.

Genómica e design

Há uns tempos descobri uma coisa que a engenharia genética poderá fazer e que pode ser  a única salvação para a carência de alimentos face ao contínuo aumento da população mundial.

Podemos combinar genes para que o arroz contenha vitamina A. O chamado Golden Rice. Alimentando assim de maneira simples e eficaz 2 biliões de seres humanos carenciados. Prevenindo-os da cegueira e da malnutrição.

Desde a evolução genética, manifestada tanto pela sobrivência do mais apto/selecção natural ou pelo cruzamento de espécimes e espécies que nos ofertou os chiuauas, aos ares condicionados aquecedores e ventoínhas ou vacinas e antibióticos que povoam o nosso bem estar, nós já vivemos num estado artificial de civilização. Os tomates eram dourados, pommodoro siginifica literalmente maçã de ouro, mas foram alteradas de modo a que passassem a ser vermelhos, já que estas tinham mais sucesso nos mercados. O ser humano sobrive graças ao artificial.

Simplesmente para melhorar a nossa condição de vida, criámos  um ideal que vem consequentemente a ser conquistado às limitações da natureza. Esse é o Mundo em que vivemos, e sabendo de onde vimos também sabemos para onde devemos ir. A evolução exige que a Bio-genética e a genómica sejam áreas fulcrais no desenvolvimento humano, como a eugenia e o cruzamento de espécimes foram.

Os arautos da destruição de tudo o que é transgénico, provavelmente também adoravam os X-men enquanto crianças, e são apenas a resistência cultural natural a algo que nem disruptor é, a ciência e o seu avanço é que nos permitem hoje em dia almejar aquilo que o enxerto fez outrora para que as maçãs se tornassem doces. Também há quem seja contra o facebook, e a internet, e não perceba que vantagem isso traz para o seu quotidiano. Vão sempre haver velhos no Restelo.

Acredito mesmo que a engenharia genética seja o futuro. Nem a propósito, e já que aqui se fala de design, deparei me há uns tempos com o trabalho da Alexandra Ginsberg, muito a propósito deste tema. Ela tomou parte de um projecto de investigação na área da engenharia genética, onde os designers foram desafiados a dar um fim ao resultado alcançado pela equipa de cientistas. Este projecto pode ser visto aqui. Basicamente a côr da merda seria o diagnóstico de uma determinada doença. Isto como? Mutando uma bacteria, a E. colli, do aparelho digestivo para reagir quimicamente a uma doença mudando de côr e assim alertando o autor. Merda verde é cancro, vermelha leucemia, amarelo pizza estragada.

Tendo por base a alteração das características base de organismos, e servindo-nos da engenharia genética com que podem ser copy pastadas certas propriedades conhecidas e assim construídos organismos ímpares, os chamados Bio Bricks, o uso da criatividade neste ramo dominado pelo avanço incremental do conhecimento científicos poder-nos-á levar a soluções disruptoras dos actuais sistemas, por exemplo, alimentícios e energéticos.

É somente mais uma área onde o designer pode ver ser valorizada a sua criatividade.

Design for download – Droog

Como já estava anunciado no site da Droog design, e eu já tinha referido num post antigo, a plataforma Design for Download foi finalmente lançada no Salone del Mobile de Milão deste ano.

Foi apenas um preview, já que como divulgam online, “The launch of this platform, featuring various brands and institutions alongside Droog, will occur later this year. ” , a plataforma só estará totalmente operacional no final do ano.

Mesmo assim é um passo gigante na democratização do desenho, que vai de encontro ao que vinha a ser óbvio como o futuro de um ramo do design. Descentralizar a produção e a distribuição dos produtos, oferecendo,tanto a comerciantes como a consumidores finais, a possibilidade de poder desenhar a sua peça de mobiliário.

Coisas #2

Os líquenes fascinam-me desde há bastante tempo. Penso que desde que recolhíamos musgo para o presépio na escola primária que sei o que são. “Isso não é musgo! São líquenes”, dizía-me uma educadora slash bióloga bem educada quanto à heresia de colocar líquenes e não musgo nas decorações da cena natalícia que iniciou a nossa era cristã. Até ouro tínhamos para não parecer que o menino jesus apenas tinha sido ofertado uma daquelas moedas de chocolate manhoso, símiles dos dobrados espanhóis que nunca chegámos a conhecer.

Reminescências à parte, investigando um pouco percebi que parte do meu fascínio se devia ao facto destas ressemblantes plantas não serem senão um organismo simbiótico. Parte alga parte fungo. Retiram dos dois o que necessitam para sobreviver. Suportam temperaturas atrozes, nem sequer gostam muito de sol e apesar de uma resistência espartana para as atrocidades da vida natural conseguem manter uma sensibilidade principesca de serem incrivelmente susceptíveis à qualidade do ar. Quanto mais o ar é puro, i.e., com menor índice de humanidade, mais eles prosperam. Conseguem ultrapassar o seu ritmo de crescimento lesma, de poucos milímetros por ano, para atingirem, digamos, um desenvolvimento tartaruga.

Isto do seu contentamento ser o reflexo da qualidade do meio ambiente não parece novo, afinal de contas nós também nos deixamos influenciar em muito pelo que nos rodeia. Este espécime parecia-me extremamente saudável, e foi apanhado no pinhal de Leiria, num caminho pela costa onde se encontra um cemitério de pinheiros.

humanitarian design

Há uns tempos atrás eclodiu uma discussão por publicações online sobre o papel do design social, com origem neste post em que Bruce Nussbaum comparava a conotação humanitária que alguns agentes estavam a usar com o marketing directo tipicamente americano que serve um interesse puramente comercial.

Surgiu numa conversa ontem, e penso que devia ser postado para consulta de quem não acompanhou esta disputa de ideias. Aqui ficam uma resposta ao post, do qual se podem consultar outros posts.

http://changeobserver.designobserver.com/entry.html?entry=14488

Trocadalho

É engraçado como às vezes podemos ser tão literais. Digo, os portugueses.

É engraçado o que o João Botelho diz neste video a respeito do cinema português. Os trocadilhos da Canção de Lisboa ou do Pátio das Cantigas, filmes que formam a base da nossa cultura cinematográfica,  ainda hoje  povoam o nosso imaginário.

Quase que a piada produz sempre uma imagem conflituosa ou contraditória.  Do Bruno Nogueira a um refrão do Quim Barreiros, passando pelo Gil Vicente, podem-se se encontrar várias referências noutras áreas da cultura portuguesa que prolongam a herança do trocadalho. A procura pela associação entre dois conceitos retirados do seu contexto produz pérolas inolvidáveis como “O bacalhau quer’alho!” ou “ó Mariazinha deixa-me ir à cozinha cheirar o teu bacalhau!”.

Não é por acaso que ambos refrões se refugiam no bacalhau, símbolo da essência de ser português  importada da Noruega, já que  desde o Rafael Bordalo Pinheiro e a sua série de cerâmica das couves, à Joana Vasconcelos e ao seu lustre de tampões, pode-se até dizer que esta forma de criatividade é portuguesa, ou nós incorporamo-la como tal.

Parece que o humor é a forma que mais despoleta os criativos portugueses.

Fernando Brízio é um dos exímios esgrimistas do trocadilho no design de produto. Tem tido um papel preponderante em criar imagens através de produtos que provocam muitas vezes um sorriso, ou que parecem ter sido extraídos de uma piada. Mas as coisas também têm de ter graça, além de sofistificação e elegância como alguns catálogos gostam de impôr.

Tenho visto outros exemplos de uma estética quase conceptual-formal, que procura justificar a criação de novas formas através da inserção de elementos que lhe são estranhos. O banco anaJo do Eduardo Silva procura, a meu ver mesmo isso, integrar um elemento, presente no contexto, mas num contexto diferente. É assim que o prato surge como tampo de um banco de tasca.

Continua…