Homem Bimbi

Longe vai o tempo em que um telefone só dava para fazer chamadas. Agora ilumina o escuro, manda telegramas, desperta-te para a vida e dá te as horas. Bem, isto deve ser só o meu. Que não é três vezes gee. Qualquer indivíduo que se preze, hoje em dia, não se pode dar por descansado ao apenas saber executar uma tarefa. Concluem-se cursos onde se prevê que se venha a desempenhar uma função botão. On/Off de algumas coisas, fazes isto e isto ok? Cinco dias por semana. Com direito a uns trocos, assegurada reforma, e a ultrapassagem de um humilhante título de recém-licenciado ou “à procura de 1º emprego” ou precário. Mesmo nas chamadas industrias criativas existe a dificuldade em encontrar um emprego à antiga. Nós cada vez mais temos de ser como as Bimbis. Fazemos de tudo. Aprendem a manusear-nos e xô cutelaria madeirada e refogados em azeite, eis a tecno cozinha sábia como a avó.

As multifunções apenas nos imitam. Somos cada vez mais obrigados a ter uma acção transversal no desempenho e exercício das nossas funções socio-laborais, transpondo aquilo a que nos designam como sendo a nossa área, que delimita o nosso raio de acção. Não saias daí. Nem passes a cerca.

Se por um lado me sinto contente por não ser como aquele cão que até tem uma trela fixa comprida mas que cria marcas no espaço que ocupa fora da sua casota, por outro deparo-me com a imensidão inoperativa da minha formação enquanto estudante para poder fazer face ao mercado de trabalho contemporâneo. Flexisegurança chamam-lhe nos jornais. Faz de tudo um pouco, biscates inclusivé, como é mais conhecido na gíria. Formações e workshops enchem os dias, num horário tanto ou quanto semelhante ao de uma semana laboral. O C V de um designer assume agora a forma de pergaminho, de comprimento semelhante ao de um rolo de papel higiénico, com funções apenas distintas devido ao grau de suavidade do manuscrito.

Sem querer culpabilizar a Bimbi por nos obrigar a ser feitos à sua imagem,  bem que podíamos voltar ao forno a lenha e ao pão acabado de fazer, que nessa arte ainda há muito para se aprender, sem termos de ser obrigatoriamente padeiros.

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Autor: sellmayer

Paulo Sellmayer is a portuguese/german designer based in Leiria, Portugal. He is the creative director at VICARA and holds his own office.

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