Homem Bimbi

Longe vai o tempo em que um telefone só dava para fazer chamadas. Agora ilumina o escuro, manda telegramas, desperta-te para a vida e dá te as horas. Bem, isto deve ser só o meu. Que não é três vezes gee. Qualquer indivíduo que se preze, hoje em dia, não se pode dar por descansado ao apenas saber executar uma tarefa. Concluem-se cursos onde se prevê que se venha a desempenhar uma função botão. On/Off de algumas coisas, fazes isto e isto ok? Cinco dias por semana. Com direito a uns trocos, assegurada reforma, e a ultrapassagem de um humilhante título de recém-licenciado ou “à procura de 1º emprego” ou precário. Mesmo nas chamadas industrias criativas existe a dificuldade em encontrar um emprego à antiga. Nós cada vez mais temos de ser como as Bimbis. Fazemos de tudo. Aprendem a manusear-nos e xô cutelaria madeirada e refogados em azeite, eis a tecno cozinha sábia como a avó.

As multifunções apenas nos imitam. Somos cada vez mais obrigados a ter uma acção transversal no desempenho e exercício das nossas funções socio-laborais, transpondo aquilo a que nos designam como sendo a nossa área, que delimita o nosso raio de acção. Não saias daí. Nem passes a cerca.

Se por um lado me sinto contente por não ser como aquele cão que até tem uma trela fixa comprida mas que cria marcas no espaço que ocupa fora da sua casota, por outro deparo-me com a imensidão inoperativa da minha formação enquanto estudante para poder fazer face ao mercado de trabalho contemporâneo. Flexisegurança chamam-lhe nos jornais. Faz de tudo um pouco, biscates inclusivé, como é mais conhecido na gíria. Formações e workshops enchem os dias, num horário tanto ou quanto semelhante ao de uma semana laboral. O C V de um designer assume agora a forma de pergaminho, de comprimento semelhante ao de um rolo de papel higiénico, com funções apenas distintas devido ao grau de suavidade do manuscrito.

Sem querer culpabilizar a Bimbi por nos obrigar a ser feitos à sua imagem,  bem que podíamos voltar ao forno a lenha e ao pão acabado de fazer, que nessa arte ainda há muito para se aprender, sem termos de ser obrigatoriamente padeiros.

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“A promessa de uma fábrica na cozinha”

Saiu ontem no suplemento “Pública” um artigo sobre a revolução que as impressoras 3d podem vir a fazer na forma como compramos/consumimos/criamos produtos.

Faz referência também a um grupo de hackers electrónicos que têm uma impressora da Maker bot, o AltLab.

AltLab is a collective dedicated to independent research and experimentation in alternative media. Community-based and community-building by nature, it seeks to promote active participation, knowledge sharing, and collaboration among individuals such as artists, programmers, engineers,  hobbyists, scientists, and all those who wish to freely explore creative and emancipatory uses of technology.

Existem cada vez mais empresas que se dedicam ao ensino, à venda e à exploração do Arduino como base para projectos de electrónica. Começa a haver uma comunidade dedicada. Procurarei escrever outro post sobre isto mais tarde.

mat & me

http://matandme.net/

Site da Matylda Krzykowski, onde ela escreve sobretudo sobre design. Histórias, entrevistas, publicações.

Ela e o Marco Lorusso, do made in design studio, estão a organizar uma exposição no próximo Salone del Mobile em Milão onde vão participar muitos dos designers europeus envolvidos com a Design Academy de Eindhoven.

O título da exposição é:

Achille is watching us – An assortment of stories and memories

Personalização inpessoal.

Lembram-se secalhar todos, aqueles que ainda são de uma década de 80, da febre dos autocolantes, que veio ombrear com a dos dinossauros. Ofereciam autocolantes em batatas-fritas, iogurtes, gelados, com os ténis… Esses brindes quase que garantiam a venda dos seus produtos, tinham um valor “nutricional” maior e tudo. O valor do sticker nessa altura estava inflacionado porque, a meu ver, além da publicidade aderente à marca em causa, provocavam aquilo que os consumidores pretendiam. Personalizar outros objectos. Como cadernos, bicicletas, até móveis eram alvo da costumização desenfreada de quem queria demarcar a diferença. Reminescendo as malas de viajantes que eram os seus passaportes, os  carimbos de constatação da passagem. Eu estive ali e ali, consumi isto e aquilo. Quase como as insígnias na capa de um morcego de Coimbra personalizam o traje, individualizam-no.  Eu hoje tenho diversos objectos literalmente estragados pelo uso de autocolantes. Era fixe ter muitos sobrepostos sem que se já distinguissem. Como aqueles emaranhados de tatoos que cobrem os braços dos agora adeptos da costumização pessoal.

Hoje em dia a personalização de um objecto vem incluída, i.e., como as sandálias Fontessa, da Melissa em colaboração com o Gaetano Pesce , cuja apresentação fui ver no passado dia 4 de Fevereio no Mude, passando pelas NikeID que se podem mandar fazer com a cor pretendida.  O extremo desta tendência é o laptop e o smartphone, onde até o seu software dita o seu uso e propósito enquanto objecto. Máquinas em branco, prontas para serem costumizáveis.

Queremos cada vez mais algo nosso.  Queremos, enquanto consumidores cada vez mais ecléticos, ter a possibilidade de escolher algo que nos seja próximo, e o mercado adapta-se e  acompanha-nos.  Procura oferecer soluções que agradem a vários indivíduos, mais do que a grupos alvo. Pessoas que se queiram distinguir pela diferença. Agora que tudo pode ser feito à nossa imagem, ainda poderemos escolher um produto? Ou teremos de nos resignar a alterar o que nos é dado? Haverá no futuro Um sapato UNO, costumizável por cada um?  Acho que ainda teremos de esperar algum tempo para que tal suceda.

Vende-se desenho de patente.

Existe cada vez mais a iniciativa de liberalizar o desenho, como patente do objecto, transpondo a produção para um ambiente doméstico. Seja em casa de particulares seja através de loja de venda especializada. Há a noção que, tendo as mesmas condições de produção em toda a parte do mundo se consegue distribuir o desenho, partilhando a sua propriedade intelectual.
Design não é também só desenho? Imprimem-se em 3D , cortam-se em CNC, importam-se modelos virtuais para criação de espaços.
Até a DROOG anda entretida a desenvolver um projecto destes,  chamado downloadable design mas que ainda não está activo, seguindo talvez as pegadas da Ponoko que oferece todo o tipo de modelos desenhados por utilizadores que se podem comprar ou comercializar.
Também se pode construir uma CNC (controlled numeric cutter) sem se saber à partida o que é um disjuntor ou um serra cabos. Há foruns para isso. Sites que promovem a partilhada de informação sobre as peças criadas, como exemplo o Rep Rap. Propriedade intelectual partilhada. Neste momento o prefixo de propriedade para esta expressão quase que aparece como sendo obsoleta dada a quantidade de exemplos prácticos de partilha que por aí surgem. Desde os creative commons ou o free patents online. Chegou a hora de pensar em comunidade, abrir os cofres do conhecimento e partilharmos.