Nós Próprios

(texto originalmente publicado na edição de 25 de Fevereiro do Jornal de Leiria)

Temos de ser nós próprios, e ser fiéis aos nossos princípios. É o que nos dizem.  

Vivemos os tempos da híper individualidade onde estamos cada vez mais sós, na individualidade exacerbada que ambicionamos ter, já que é a que nos promove, nos diferencia e parece preencher uma existência de outro modo vazia. Acabamos a afirmarmos e a reafirmarmos quem somos, qual Paula Rego, numa auto análise junguiana.

Mas enquanto sociedade temos mais desafios conjuntos do que impor a nossa personalidade, cultura e identidade acima de tudo e todos.

Objectivos comuns, e bem woke, como a emergência ambiental e o crescimento da intolerância, mas também objectivos mais mundanos, como a limpeza do rio ou a melhoria das condições de transporte são causas que promovem a união social. Juntos por algo.

Parece-me que o futuro não está no individualismo. Encontro no colectivismo e associativismo a solução para muitos destas situações, como se pode aliás observar e bem em Leiria. Mas parece que isto é algo que os políticos ainda não perceberam, relegando para especialistas as decisões subjectivas inerentes ao cargo para o qual foram eleitos.

Precisamos de planos, de uma estratégia que possa de facto contribuir para o enriquecimento a vários níveis da sociedade, mas também precisamos que as pessoas que os levem a bom porto acreditem neles, sem se alhearem de tomar uma decisão, com receio de verem expostos aquilo que pensam.

Precisamos de gente que não tem medo de ser ela própria. 

Se por um lado as conquistas das liberdades individuais e colectivas são umas das lutas de hoje em dia e nos permitiu progredir em aspectos sociais, mostrou-nos o quão egomaníaco se pode transformar o ser humano, desprezando inclusive o planeta que habita.

Parafraseando B Fachada, temos de admitir a nossa incompletude e ter a humildade para aprender e ser ensinado. Só assim crescemos uns com os outros.  

Temos de, no fundo, Mudar de Método. 

Planos

( texto originalmente publicado no Jornal de Leiria a 17/12/2020, pode ser consultado em https://www.jornaldeleiria.pt/opiniao/planos)

Se no final de cada ano há a necessidade de planear o próximo, ainda mais premente se torna findo um período onde poucos planos se mantiveram de pé. Acrescente-se o facto da década se iniciar verdadeiramente em 2021, já que de 2020 só tivemos três meses, e estamos numa fase de grande planeamento dos tempos que aí vêem. 

Desde ser consultado sobre planos estratégicos de instituições públicas e de associações de empresas, a contribuir para planos de actividades de associações onde estou activamente envolvido, passando por tomar posse numa associação profissional, com os seus planos e objectivos, este final de ano tem sido intenso ao nível de actividades sociais. Paralelamente, em termos empresariais tive um ano desafiante, onde as mudanças de paradigmas ajudaram a estabelecer a VICARA num panorama nacional e conquistar mercado internacional, obrigando me a estabelecer uma equipa nova e a desenvolver formas de planeamento interno.

Porém, são tempos difíceis de planear, uma vez que as premissas com que nos regíamos já não estão cá. 

Podemos contar com o quê? O que vai acontecer? 

Mais do que tentar identificar o que mudará, e são muitas coisas, e agir de acordo com esses factores externos, importa exacerbar os valores que já lá estão. Aquilo de que podemos estar certos é com aquilo que controlamos. Parece simples, mas na redução da incerteza podemos conseguir os melhores resultados.

Apesar do mundo ter mudado muito nos últimos tempos, os factores de transformação já estavam em curso. Temas como sustentabilidade, inteligência artificial ou o tempo que gastamos em deslocações para o trabalho tornaram-se prementes. Importa focar nestes aspectos que as organizações já estavam a por em prática e que com a pandemia foram obrigadas a acelerar a sua implementação. 

Contra isso está a velocidade e a quantidade de informação que circula e que nos impõe  absorver e comentar qualquer efeméride nos meios de comunicação. Mas isso só confunde.  Que venha então 2021 com calendário cheio

Em Fila

(texto originalmente publicado na edição de 22/07/2020 do Jornal de Leiria)

Estamos todos em fila. Na fila para a vida, à espera da nossa vez.

Temos passado o tempo à espera. Que isto passe, que melhore, que seja seguro, que nos indiquem quando é o que o futuro começa. Apesar das consequências, das inevitabilidades, das calamidades, das emergências e das necessidades.  

Em casa, quando estávamos confinados tivemos a liberdade condicionada. Na rua, estamos distanciados ou em fila. É inevitável que haja um exercício de analisarmos o que mudou, e como mudou. Mas e quando interiorizarmos o se tornou no nosso novo real?

As mudanças sociais são férteis para a criatividade, apesar de no sentido de oportunidade haver como que um paliativo de uma realidade quebrada. Ainda assim, penso que há nesta crise um sentido de perscrutação, de observar o que está a correr mal. Sentimo-nos obrigados a repensar os modos de fazer implicou a uma maior digitalização das actividades culturais e profissionais. Mas e como funcionarão as exposições em formato físico?

Enquanto director criativo e curador, interessa-me o design enquanto proponente de uma realidade alternativa à que nos é apresentada. Pôr em causa a nossa percepção das coisas, obrigando-nos a repensar aquilo que parece óbvio e às vezes sem significado. O design expositivo é também um meio de contribuir para a reflexão sobre os conteúdos expostos, podendo ampliar o alcance da experiência, seja ela mais contemplativa, informativa ou didáctica.

Assim, no momento de inaugurar a Galeria de Design da VICARA procurei criar uma situação inesperada, integrando a experiência da espera, de uma fila, com a da própria exposição. Tornando o visitante em performer, as suas acções vão determinar a obra. Esta relação será intensificada através de filmagens, onde o visitante se tornará voyeur de si próprio. É amanhã, às 18h no Edifício Ceres nas Caldas da Rainha.

Design e Pandemia

(texto originalmente publicado na edição de 18 de Maio de 2020 do Jornal de Leiria)

Estaria distraído senão escrevesse sobre a pandemia que tem tomado conta dos nossos dias. Vou fazê-lo tendo em linha o papel que o design tem tido nos principais vectores de acção observados, seja a informar, a proteger e a entreter as populações.

O design é esta disciplina que organiza e sistematiza a criatividade cujo objecto de pensamento tenha uma finalidade. Num sentido lato, e estritamente etimológico, é uma acção criativa, do inglês –to design. Impele a uma acção reactiva a um problema encontrado, indo de encontro a um cliente ou a um novo material/tecnologia. Nestes tempos de emergência temos

É nos momentos de crise que o engenho e a invenção encontram as condições perfeitas à criação, havendo a necessidade extrema e os meios apropriados, às vezes ilimitados para a sua execução. De repente nada mais interessa para além de informar as populações e desenvolver as soluções/produtos para a resolução dos problemas associados a esta pandemia. O necessário é sobreviver e ultrapassar esta situação da melhor maneira possível.

A intervenção do design neste contexto tem sido em três vectores. 

No vector de informação todos temos visto campanhas a apelarem para ficarmos em casa. Estas são desenvolvidas por parte de marcas, colectivos de criativos e das instituições públicas. Aqui, o design gráfico tem servido para criar todos os suportes de comunicação, como cartazes, ilustrações e imagens digitais. Para além disso, e melhor forma de visualizarmos os dados é através de gráficos e infografias desenhados para que seja clara e objectiva a informação mostrada.

No vector da protecção tem havido cooperação global na procura de soluções para produtos como Viseiras, Máscaras e Ventiladores. Aqui observa-se a aplicação generalizada do Open Design, um conceito de propriedade intelectual onde os desenhos de uma determinada viseira ou máscara são partilhados livremente e comunitariamente melhorados. Projectados para um bem comum, não existe o interesse de capitalizar na ideia.   No vector de entretenimento têm havido várias propostas para a procrastinação de quem se encontra em distanciamento social ou em quarentena sem muito que fazer, fundamentais para a manutenção da saúde mental. De design anónimo o símbolo gráfico da reacção a esta pandemia é o Arco Íris. Bráulio Amado, designer gráfico sediado em Nova Iorque apresentou esta semana uma versão para colorir em formato destacável do jornal The New York Times.  Para quem tem menos jeito para desenhar se lembrar que depois da chuva, vem o sol. 

Açambarcamento

Houvessem prateleiras de liberdade e estas tinham continuado cheias até que os descontos as fossem esvaziando por consumidor desconfiados. Se é liberdade, porque é que ainda aqui está? Porque provavelmente não era real. Porque ninguém nos disse que eram reais.

O açambarcamento vive de uma mentalidade de massas. Onde cremos no que os outros crêem. Este conjunto de acreditações serve mais para provar a liberdade do que autoridade. A primeira é desejada, a segunda imposta.  Disseram-nos que o confinamento, o isolamento e a quarentena eram reais. Ninguém nos impôs nada. Nós acreditamos.  E nós acreditámos que o papel higiénico nos garantia a liberdade.

Queríamos a liberdade toda para nós, porque não queríamos que nos impusessem o oposto. Açambarcámos aquilo que nos diziam que íamos precisar. Que o outro nos dizia. Porque o outro é nesta crise o mais importante. Queremos que o outro sobreviva, e ele quer o mesmo para nós. E vice-versa.

Querer tudo para si, reter tudo ou monopolizar enquanto gesto de egoísmo colectivo foi uma das características do início desta crise. Temos agora todo o tempo, todo o nosso espaço e tudo o que é nosso para nós por um tempo indeterminado. Da maneira egoísta que pensámos que nos ia libertar e se tornou num prisão. Pelo bem de todos.

 

Estar Fora

(Texto originalmente escrito na coluna de opinião Mesa de Cabeceira do Jornal de Leiria de 11 e Fevereiro de 2020 – https://www.jornaldeleiria.pt/opiniao/estar-fora)

Como qualquer forma de definição pela negativa, por oposição, é estar também dentro.

É uma tautologia.

Estamos fora de cena, por fora de um assunto, fora de um lugar.

Apesar de nos indicarem exclusão, são conjugações que evidenciam onde não estamos, apresentando a, por vezes óbvia, vantagem de não se estar dentro.

Parece confuso, mas a vontade de autoexclusão propicia precisamente aquilo que se pretende.

Estar fora.

Neste sentido, estar por fora e sair do conforto de saber exactamente tudo sobre o que nos rodeia significa poder reflectir.

É a liberdade de ver as coisas de outro ângulo que nos permite observar o aquário de fora, e ver que os peixes que lá nadam só esse espaço conhecem.

Conhecer mundo e confrontar aquilo que conhecemos com aquilo com que coabitamos transforma a nossa percepção de realidade de uma forma plural e diversa.

Encontramos a diferença como forma de aceitação ao vivenciar aquilo que desconhecemos.

Há uma ténue diferença entre as vantagens culturais que uma sociedade hermética apresenta, com as idiossincráticas características que um contexto irrepetível traz, e a atávica e endogâmica apologia de mediocridade, onde o conhecido é sempre e apenas o real existente, transformando – se somente a cada rara iteração e influência exógena.

Quando nos alimentamos do que está apenas dentro, incorremos num processo autofágico, isto é, de “manutenção da vida à custa da própria substância do indivíduo”.

Deixando o sentido literal da regeneração das células do nosso corpo, nós somos sobretudo aquilo que nos habita e não o que nos compõe.

Essa substância, a imaterialidade e intangibilidade do nosso ser, também precisa de alimento.

Aí, tal como qualquer dieta alimentar, é preciso pensar no que se come, ter onde comer, e reclamar pelo direito a comida de jeito.

Apesar disso, resta-nos a saudável evidência que nunca estamos fora da vida. Sobretudo se jantarmos fora

Ataraxia

(isto é o início de uma rubrica intitulada, “contra o marasmo do distanciamento social”, que envolve pesquisar palavras/conceitos e/ou coisas na wikipedia e escrever mais ou menos livremente sobre elas.)

Nos meus tempos de adolescente, marasmo e ataraxia tinham uma leitura semelhante. Acho que nunca questionei muito o significado dessas palavras. Aceitava-as com a quietude que de uma forma generalizada habitava a Leiria provinciana onde cresci. Com o advento da internet e das pesquisas feitas em bibliotecas sem fim muitas vezes perdia-me em labirintos de subsequentes palavras e conceitos. Numa dessas pesquisas cheguei à palavra VICARA.

Mas, para este post, começámos por pesquisar por Ataraxia. Para além de ser nome de bandas,  é também o nome de uma música lançada esta semana pelo Sufjan Stevens, em conjunto com o Lowell Brams. Pode ser ouvida aqui.

Vamos à devida desambiguação, uma vez que querem dizer coisas distintas. Se marasmo, em termos biológicos “ocorre quando os indivíduos não seguem uma dieta mínima de nutrientes, carboidratos, lipídios e proteínas, durante muito tempo, em quantidade suficiente necessário ao bom funcionamento do corpo humano.” (in wikipedia.org), em termos figurados tem uma leitura análoga. É quando não há suficiente alimento, em termos de estímulos culturais, sociais, etc, para o bom funcionamento do corpo humano, ou de uma parte dele, como da cabeça. A quarentena pode ser um marasmo, um grande tédio mental.

Porém, pode permitir atingir um estado de ataraxia. Ambas palavras derivam do grego, daí que a sua etimologia fosse saltaricando de significados e apropriações, ao longo dos tempos e culturas. Não nos interessa tanto que seja “o negativo alfa privativo de tarachê (τάραχή )” mas que signifique algo como imperturbabilidade, serenidade ou equanimidade (palavra nova e bonita que vale a pena ir pesquisar). Ou seja, definindo-se pela negativa é o oposto de distúrbio/tumulto, evocando uma imagem de calma em tempos de tempestade. É aliás um estado mental almejado por algumas correntes filosóficas.

O marasmo é assim uma quarentena, forçada. A ataraxia permite que a calma do distanciamento social em casa se sobrepõe ao tumulto lá fora.

O que mais gosto neste tipo de diatribe é que para além de ocupar o tempo, se aprende sempre uma ou outra palavra nova no processo. Mas sempre com serenidade.

Se tiverem alguma sugestão de palavra(s) sobre as quais valha a pena investigar, deixem um comentário abaixo.

Como ser vendido

Para explicar sucintamente como a forma de vender produtos do trabalho de designers evoluiu ao longo das demarcadas fases de desenvolvimento produtivo na Europa e EUA.

Fases e sua caracterização:

  1. Revolução Industrial. Adequação da forma aos processos produtivos, tendo como objectivo a democratização das condições. Substituição do artesanato enquanto modelo produtivo e das artes decorativas enquanto desenhador/criador.
  2. Pós-guerra. New-deal. Do optimismo ressurgente das políticas de investimento público americanas deu-se início a uma nova era do consumo, caracterizada pelo papel do design na criação do desejo, através de formas sobre emocionadas, comummente designadas como streamlining.
  3. Design Italiano. Contexto de pouco trabalho para arquitectos, uma desdobramento para a decoração (arridetura). Forte input industrial permitiu o desenvolvimento de novas formas e processos, que permitiram desconstruir os significados vigentes.
  4. Design Holandês. Anos 90. Através de uma política de subsidiação autárquica muitos designers holandeses puderam desenvolver o seu trabalho longe da pressão industrial, fabril e comercial das empresas. Caracterizado por atelier próprio, série ilimitadas mas sobretudo pequenas e alto valor acrescentado fruto de uma marketização de um produto cultural como um todo. O design holandês.
  5. Design arte. Fruto deste desenvolvimento anterior surgiu no início da década dos anos 2000 o que de forma arrepiante foi designada de design arte. O único ponto de comum é com o espaço que costuma ocupar nas galerias, usando os mesmos canais de venda que os artistas. Feiras e exposições, vendendo peças hiper exclusivas e seriadas.
  6. Designer Maker. 2010. Se no caso anterior o sistema produtivo depende em muito de uma equipa organizada de operários, sendo estagiários, artesãos ou outros, aqui o designer assume de início ao fim todo o processo. Porém, os canais de venda são semelhantes.
  7. Artesanato 4.0. Associado ao rápido crescimento de plataforma de e-commerce, como o Etsy e as Redes Comerciais, este modelo suprime a necessidade de deslocação, que aumentaria os custos, trazendo o cliente à loja virtual através de mecanismos digitais. O artesão/vendedor retém as margens junto de si, não dependendo de terceiros e intermediários. Marketing Directo.

Engenho e Clandestinidade

Se a necessidade é a mãe de todas as invenções, então a clandestinidade tem de ser o pai. Ou o primo.

Já sabemos que a necessidade aguça o engenho, tornando o ser humano num desenrascado evolucionista. Por outro lado, a clandestinidade incita ao desenvolvimento de formas subversivas de contornar as regras vigentes. O que é parecido.

Em comum têm a contribuição para a criação de uma realidade que ainda não existe.  Apesar de o objectivo ser semelhante, melhorar as condições de quem se propõe a desenvolver uma invenção/design novo, a  relação com o contexto em que se encontram  define a sua legalidade, e como tal o código de valores subjacente.

Em Design and Violence há um caso em que o engenho e adaptação levaram os protestantes em Istanbul a usar embalagens de detergentes em spray para lavar os olhos das pessoas atingidas por gás lacrimogéneo.  Apesar de a acção de lavar os olhos de um protestante não ser ilegal, o protesto em si pode assim ser considerado. A necessidade de adaptação decorre de não haver no mercado, pronto a comprar, um produto com efeito semelhante, por ser uma acção invulgar mas sobretudo decorrente de um contexto de subversão.

O mesmo se observa no clássico Cocktail Molotov, onde um design aberto foi historicamente usado nos mais variados conflitos. Desde a guerra de trincheiras da 2ª Guerra Mundial aos revolucionários de Nicarágua, o seu design simples e eficaz permite o máximo efeito, mesmo que não seja destrutivo. A dimensão comunicativa dos objectos torna-os  símbolos daquilo que representam. A eficácia de um cocktail molotov não é tanto medida pelo seu efeito destrutivo mas pela mensagem que carrega.

As necessidades estão condicionadas aos graus de liberdade que acarretam, e os objectos criados também. Fugir da prisão é uma acção onde o desenvolvimento de artefactos, ferramentas de trabalho como facas, cordas ou pás, desenvolve um tipo de lógica de criação engenhosa onde a função é reduzia ao mínimo, relevando apenas a eficácia. Ou seja, uma faca é apenas um objecto afiado que serve para espetar. Não tem um cabo nem serve para descascar uma laranja.

Se uma acção ilegal, como contrabandear polvo, necessitar da astúcia de um artefacto ocultador o design deste tipo de objectos está focado em soluções não existentes no mercado. Dado os menores recursos, artesanais e de escassos materiais, as soluções encontradas recorrem à auto-produção.

A subversão faz relevar a capacidade de engenho no ser humano, ao mesmo tempo que o instinto de sobrevivência incita ao desenrascanço.

Seria interessante investigar melhor algumas actividades ilegais, como o contrabando, as actividades de pesca ou a impressão de textos anti fascistas,  em busca de artefactos que demonstrem esse engenho.

 

 

Rio e Cidade

(texto originalmente publicado no Jornal de Leiria – edição de 28-11-2019)

Temos um rio que flui, da montanha até ao mar, criando uma cidade pelo caminho. Um rio que rega, inunda e banha. Um rio que habita a paisagem e é habitado, por pessoas, por aves, por peixes. Um rio que desagua e é desaguado, que é amado e desamado. É no fundo um rio como qualquer outro. Como qualquer outro que corre de cima para baixo, para norte, contra a corrente. É assim o rio Lis.

Apelidada de cidade do Lis, Leiria presta-se pouco a prestar homenagem ao curso de água que lhe deu origem. Apesar de neste momento as margens do rio em contexto urbano serem um espaço público, comunitário e agregador, usado por milhares de pessoas por dia, tarda em haver uma celebração que ateste a importância que tem para a cidade.

Apesar de dar nome a todos e mais alguns tipos de negócios, mas também a iniciativas identitárias, culturais e gastronómicas, de ser parte do percurso desportivo preferido de uma comunidade que procura um estilo de vida saudável, de ser alvo de inúmeras fotografias turísticas de quem visita a cidade, de ser continuamente alvo de polimentos e limpezas, de projectos de jardins e praias fluviais, ainda muito falta para que possa ser devidamente apreciado.

É que continua a ser insalubre, impedindo os que nela querem tomar banho de o fazerem, é mal cheiroso, fazendo questão de se fazer sentir sempre que faz mais calor ou uma descarga mais descuidada, e por fim é desamado, por essas razões acima descritas. A alcunha de rio Lixo continua a assentar-lhe.

Lembro de apanhar lagostins no lugar onde a ribeira do Sirol se encontra com o rio Lis e de encontrar máquinas de lavar e pneus pelo caminho. Era normal. Hoje em dia é normal pensarmos em cuidarmos daquilo que também é nosso. Mais que isso, que no desenho de uma identidade, de uma marca, que seja da cidade ou de um território se inclua também a paisagem, já que sem ela não há lugar. Já que sem ela não há cultura.

Leiria devia ser a cidade do Lis.